3 dic. 2011

RONALDO CAGIANO de "O SOL NAS FERIDAS"



ESCAMAS


Havia um amanhecer depois daquele outono.

A vida, em suas estranhas latitudes,
território lisérgico onde dormiam meus fantasmas,
já não é mais o canteiro onde cultivei desilusões

hoje, planeta onde não me escondo,
catapulta-me sobre os abismos.

Quebrei o silêncio dos invernos
com o veto ao deserto absoluto
em que a existência havia se corrompido.

Onde tudo parecia inóspito, inferno,
como um atol de sarças venenosas
agora é sonho que se cristaliza,
habitante provisório
de um mundo sem escamas.

De: “O SOL NAS FERIDAS”, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

RONALDO CAGIANO de "O SOL NAS FERIDAS"

O RITMO DAS COISAS


A poesia traz as coisas para si
e de si as reinventa para a vida.
Joaquim Branco


O tempo
com sua máquina de esquadrinhar
esfarela o museu de ossos
escondido sob a pele fatigada.

O tempo
e seu evangelho de dissoluções
escultor insone
burilando o caminho rumo às Parcas.

O tempo
com sua vigília
sobre os escombros
em que nos transformamos a cada dia.

O tempo
arsenal de punhais
com a lógica taliônica
de uma rude cronologia.

O tempo
(belvedere ou abismo?)
no qual me lanço
para ser absorvido pelo insondável
na peregrinação movediça no vazio.

O tempo
animal invisível
que nos rouba todas as idades
e nos devora
com seu ritual insensato
dentes afiados
como uma nuvem de gafanhotos
devorando nossas córneas.

O tempo
relógio insaciável
anoitecendo os meus olhos.

O tempo
a moenda das horas
impondo o ritmo das coisas.

De: “O SOL NAS FERIDAS”, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

RONALDO CAGIANO de "O SOL NAS FERIDAS"

MARCHA INSONE

... existir é sangrar.
Hildeberto Barbosa Filho


...e havia uma madrugada a vencer
feito Sísifo no aclive interminável:

viver era a pedra renovada
sob os ombros que suportavam
o rigor das punições.

Contra a escuridão
desenhei atalhos de fuga,
quando se insinuava o boicote
ou a avidez da tocaia.

O caminho longo sob os litígios
de um rio imundo
já não é como a pirâmide que desafia
nem a esfinge que devora:

seu coração decifrou para mim
os códigos da batalha

no teatro insone
entre sóis hibernados

e a vida que passava sonâmbula
acordou-me antes da sinfonia dos galos.

Penetrei o vazio,
lago inerte estancando a felicidade,
para reencontrar-me nos mistérios
de um peito
aberto como asas de anjo
ou nas excreções de alguma tristeza
com seus lábios de fogo.

De: “O SOL NAS FERIDAS”, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

RONALDO CAGIANO de "O SOL NAS FERIDAS"

SAAVEDRA, 2111

Na praça invadida pelas brumas de junho
os pássaros buscam na ínfima luz do sol
notícias de um mundo distante.

Enquanto homens solitários
e jovens conduzindo cachorros
emolduram as ruas com um balé de patas
aguardo o poeta
que trará o canto agudo
e na lâmina do verso
explicará a vida.

Em direção a Rafael Calzada
percorri a solidão ferroviária
num trem que penetrava os subúrbios
como um cometa povoado de rostos.

No caminho, meus olhos visitavam
casas geminadas e quintais lindeiros
e nascia uma história fértil
de pomares viçosos
galpões desérticos
e esqueletos de fábricas.

Numa retaguarda de acenos
a estación Constitución
haveria de ensinar outras
lições de partida,

mas quando desci em Adrogué
o amigo me esperava como a uma notícia

e meus braços saudaram a cidade
como a estátua do Redentor à Baía de Guanabara.

No jardim de Nídia Santa Cruz
(ventre semeado de futuros)

a terra anunciava um roseiral
tão belo quanto os girassóis de Van Gogh.

De: “O SOL NAS FERIDAS”, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

Poemas de RONALDO CAGIANO en Español

DE LAS COSAS Y SU RITMO

Cuanto de nós,
é o que não somos?
Ésio Macedo Ribeiro


El sol encendido en mis ojos
hiere la extranjera gestación de los vacíos.

Hay demasiado tiempo en los relojes de la ciudad:
eternidad con sus termitas de acero
atravesando nuestros entrañas
para el triunfo de lo imponderable.

Estamos purgando la existencia
con esas agujas insolentes
condenándonos a un destino de fatigas
o a ningún registro en los obituarios.

Piedra dentro del tiempo,
la muerte, como el molino,
impone el ritmo de las cosas:
pacientemente nos enharina,
granos de nada
en un campo de bacterias.




Ronaldo Cagiano (traducción de Mariano Shifman)
Del libro O SOL NAS FERIDAS, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

Poemas de RONALDO CAGIANO en Español

MARCHA INSOMNE

…existir é sangrar.
Hildeberto Barbosa Filho


… y había una madrugada a vencer
hecho Sísifo en la ascensión interminable:

vivir era una piedra renovada
bajo los hombros que soportaban
el rigor de las puniciones.

Contra la oscuridad
diseñé atajos de fuga,
cuando se insinuaba el boicot
o la avidez de la emboscada.

El camino largo bajo los litigios
de un río inmundo
ya no es como la pirámide que desafía
ni la esfinge que devora:

su corazón descifró para mí
los códigos de la batalla

en el teatro insomne
entre soles hibernados

y la vida que pasaba sonámbula
me despertó antes de la sinfonía de los gallos.

Penetré el vacío,
lago inerte estancando la felicidad,
para reencontrarme en los misterios
de un pecho
abierto como las alas de un ángel
o en las excreciones de alguna tristeza
con sus labios de fuego.


Ronaldo Cagiano (traducción de Mariano Shifman)
Del libro O SOL NAS FERIDAS, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

Poemas de RONALDO CAGIANO en Español

SAAVEDRA, 2111

En la plaza invadida por la bruma de junio
los pájaros buscan en la ínfima luz del sol
noticias de un mundo distante.

Mientras tanto, hombres solitarios
y jóvenes paseando perros
enmarcan las calles con un ballet de patas
aguardando al poeta
que traerá el canto agudo
y en la lámina del verso
explicará la vida.

En dirección a Rafael Calzada
recorrí la soledad ferroviaria
en un tren que penetraba los suburbios
como un cometa poblado de rostros.

En el camino, mis ojos visitaban
casas simétricas y quintas linderas
y nacía una historia fértil
de campos exuberantes
galpones desérticos
y esqueletos de fábricas.

En una retaguardia de gestos
la Estación Constitución
habría de enseñar otras
lecciones de partida,

mas cuando descendí en Adrogué,
el amigo me esperaba como a una noticia

y mis brazos saludaron la ciudad
como la estatua del Redentor a la Bahía de Guanabara

En el jardín de Nidia Santa Cruz
(vientre sembrado de futuros)

la tierra anunciaba un rosal
tan bello como los girasoles de Van Gogh.


Ronaldo Cagiano (traducción de Mariano Shifman)
Del libro O SOL NAS FERIDAS, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

11 oct. 2011

VOCES AL VIENTO - 77 poemas - DALTER - REVAGLIATTI - TALLARICO

INVITACIÓN:

Presentación y lectura:

Jueves 20 de OCTUBRE, 19 Hs.-

Centro Cultural de la Cooperación
Sala Laks, 3er. Piso
Av. Corrientes 1543, Buenos Aires



Una mano
más una mano
no son dos manos,
son manos unidas.
Une tu mano
a nuestras manos
para que el poema
no quede en pocas manos
sino en todas las manos.

GONZALO ARANGO



*** *** ***



77
poemas

Una breve muestra

***


Dejá que entre la luz,
dejala que entre,

que se acomode,
que abra su valija;

no vayas a echarla;
dale de comer;

dejá que ande por la casa.


EDUARDO DALTER


***


SIGA LA FLECHA


Aquí donde he llegado
no sé qué es

Sé que
sin saber a dónde
he llegado

he sabido
dirigirme.


ROLANDO REVAGLIATTI


***


UNA ENTREVISTA DE TRABAJO


Yo quise traspasar el umbral de los cerdos.
Comí con ellos bajo el espíritu de las edades,
con la parte cautiva de mí,
con mis orígenes de pobre tipo fiel.
Fue inútil: la verdad, como una rosa fría,
sangró por mi boca.


JOSÉ EMILIO TALLARICO

.

22 sept. 2011

Año 3 - Hoja N° 10 - Bienvenidos Navegantes 2011


Fotografía: Martín Figueroa

Affonso Romano de Sant' Anna - Brasil

Epitáfio para o século XX


1.
Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.
2.
Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.
3.
Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.
4.
Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado, empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.
5.
Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.
6.
Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.
7.
Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas, sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.
8.
Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.
9.
Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.
10.
Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.
11.
Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
— per seculae seculorum.



Usei o poema EPITÁFIO PARA O SÉCULO XX durante dois ou três semestres no Curso de Pós-graduação em Ciência da Informação, na Universidade de Brasília, na disciplina que então ministrava – Informação, Desenvolvimento e Sociedade. Os alunos liam e fazíamos uma verdadeira heurística do texto. Por que?

O poema de Affonso é o que eu chamo de legítimo “poema-ensaio”, com um conteúdo informacional preciso, no que Roberto Juarroz chamaria de “poiesofia”. Produto de umscholar que disserta magistralmente sobre o tema com eruditismo e domínio da técnica poética, em que as informações se conformam em versos rítmicos de “palavra-puxa-palavra” mas não por simples intenção onomatopaica, mas, sobretudo, significante, coisificante. Sucessor de Drummond, conhecedor do poema processo (que até deve ter combatido em seus excessos formalísticos), os versos compõem um mosaico que analisa e cristaliza uma visão crítica do/no ocaso do século passado. Magistral é a palavra que eu uso tanto para significar a magnificência dos versos quanto seu didatismo.Exige do leitor uma interpertação a partir das palavras-chave que invoca em seu discurso “exemplar”, de contexto, de posição histórica e crítica sobre os elementos citados, que devem necessariamente ser do conhecimento do leitor. Poema síntese de idéias e valores que “dan relevamiento” a um século que se foi, e que foi tarde...
Antonio Miranda

Affonso Romano de Sant' Anna - Brasil

EPITAFIO PARA EL SIGLO XX

1.
Aquí yace un siglo
donde hubo dos o tres guerras
mundiales y millares
de otras pequeñas
e igualmente bestiales.

2.
Aquí yace un siglo
en que se creyó
que ser de izquierda
o de derecha
eran cuestiones centrales.

3.
Aquí yace un siglo
que casi se esfumó
en la nube atómica.
Se salvó por suerte
y por los pacifistas
con su homeopática
actitud
— nux- vómita.

4.
Aquí yace un siglo
que un muro dividió.
Un siglo de concreto
armado, canceroso,
drogado, apestado,
que al fin sobrevivió
a las bacterias que parió.

5.
Aquí yace un siglo
que se abismó
con las estrellas
en las telas
y que el suicidio
de supernovas
contempló.
Un siglo filmado
que el viento se llevó.

6.
Aquí yace un siglo
semiótico y despótico,
que se creyó dialéctico
y fue sidoso y patético.
Un siglo que decretó
la muerte de Dios, la muerte de la historia,
la muerte del hombre, en que se pisó la luna
y se murió de hambre.

7.
Aquí yace un siglo
que oponiendo clase a clase
casi se desclasificó.
Siglo lleno de anatemas,
antenas, siberias y gestapos
e ideológicas safenas;
siglo tecnicolor
que todo trasplantó
y el blanco con el negro
a la fuerza juntó.

8.
Aquí yace un siglo
que se echó en el diván.
Siglo narciso & esquizo
que no pudo computar
sus neologismos.
Siglo vanguardista,
marxista, guerrillero,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyceano,
Borges-kafkiano.
Siglo de utopías y hippies
que en un chip entrarían.

9.
Aquí yace un siglo
que se llamó moderno
y mirando soberbio
el pasado y el futuro
se creyó eterno;
siglo que de sí
hizo tal alarde
y, sin embargo,
—se va ya muy tarde.

10.
Fue duro atravesarlo,
Muchas veces morí, otras
quise volver al XVIII,
o al XVI, saltar al XXI, salir de aquí
¿a qué lugar?
— Ninguno.

11.
Piedad de nos, oh vosotros,
que en otros tiempos nos juzgáis
desde la amena galaxia
en que irónicos estáis.
Piedad de nos,
— modernos medievales —
piedad de nos, como Villon
y Brecht, que por mi voz
de nuevo imploran. Piedad
de los que en este siglo vivieron
—per saecula saeculoroum.


*******

Extraído de EL HOMBRE BOMBA ANTOLOGÍA AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA, publicación de Chile Poesía Editorial. Santiago de Chile: 2005. Em coedición con la Embajada de Brasil.
Ganhei o exemplar desta obra do Centro de Estudos Brasileiros. Comentando com o autor (Affonso), ele brincou referindo-se à situação de portar o livro no vôo Santiago-São Paulo e só então perceber que o título da obra — EL HOMBRE BOMBA – poderia causar algum desassossego aos tripulantes e passageiros... Certo que a poesia é explosiva e pretende mudar o mundo, pelo menos em seus alicerces ideológicos.

Agradecimiento : Prof.: ANTONIO MIRANDA
PORTAL DE POESIA IBEROAMERICANA
www.antoniomiranda.com.br

Fotografía: Martín Figueroa

Hugo Francisco Rivella - Argentina

He de morir del modo en que he vivido


He de morir del modo en que he vivido. No seré como el cóndor que tiene un solo amor y se deja morir cuando la muerte se lleva lo que amó como un soplido.
Vuela, se eleva y se deja caer desde la altura cuando pliega sus alas y en el aire es una ráfaga que ya no pertenece a tanta muerte.
Bendito cóndor, agua sublime.
He de colgar del árbol como Judas pues traicioné la senda y la mirada del hijo que he soltado de la mano. Fui un pirata en los mares del sur, crujía mi calavera cuando mi espada atravesaba el alma de algún náufrago, y fui un ladrón en las garras del tigre.
Tendré mi muerte así, pura y desnuda.
Escribiré un poema en el ocaso, garrapateado en la sombra del hombre que fui,
tal vez,
de ese modo se recuerde mi nombre a la luz de una lámpara.


Hei de morrer do modo em que tenho vivido


Hei de morrer do modo em que tenho vivido. Não serei como o condor que tem um só amor e se deixa morrer enquanto a morte leva o que amou como um sopro.
Voa, se eleva e se deixa cair desde a altura enquanto dobra as suas assas e no ar é uma rajada que já não pertence á tanta morte.
Benzido condor, água sublime.
Hei de pendurar da árvore como Judas pois traí a senda e o olhar do filho que tenho soltado da mão. Foi um pirata nos mares do sul, rangia a minha caveira coando a minha espada atravessava a alma de algum náufrago, e foi um ladrão nas garras do tigre.
Terei a minha morte assim, pura e nua.
Escrivarei um poema no ocaso, garafunhado na sombra do homem que foi,
tal vez,
de esse modo se lembre o meu nome á luz dum abajur.


Traducción: Alberto Acosta

Hugo Francisco Rivella - Argentina

Vivir más de la cuenta


Vivir más de la cuenta, esa es la eternidad.
Salvarse de la horca y de la guillotina, decir como mi madre: “He cumplido 95. Se me fue la mano”
Y ¿Dios, entonces?
Dios muere conmigo porque soy su creador.
Yo pinté en el almendro su larga cabellera y en el ojo del niño incrusté su secreto; puse en la prostituta una rosa lavada y en la mano que sangra dibujé una máscara.
Cierro mi corazón, lo vuelvo impenetrable.
Dejo en tu lengua una llave minúscula.


Viver mais da conta


Viver mais da conta, essa é a eternidade.
Salvar-se da forca e da guilhotina, dizer como a minha mãe: “Tenho cumprido 95. Se me foi a mão”
E ¿Deus, então?
Deus morre comigo porque sou o seu criador.
Eu pintei na amendoeira a sua longa cabeleira e no olho da criança incrustei o seu segredo; pus na meretriz uma rosa lavada e na mão que sangra desenhei uma máscara.
Fecho o meu coração, o torno impenetrável.
Deixo na tua língua uma chave minúscula.


Traducción: Alberto Acosta

Hugo Francisco Rivella - Argentina

EL HIJO MUERTO

“El mundo ya no es digno de la palabra”
Javier Sicilia


El poeta ha escrito el último poema porque en la calle,
solo,
sin cielo ni banderas,
yace el hijo tendido.
¿Cómo podrán sus ojos saciar mi calavera?
¿Cómo podrá la noche tapar su rastro en mí?
¿Cómo podré quitar del mar sus trágicos caballos y el carruaje de espejos que lo han visto morir?
Javier Sicilia oculta su rostro entre las manos
¿Quién lo puede tocar?
¿Con qué canción de cuna se dormirá la muerte?
¿En qué zona del cuerpo me acuchillan sus lágrimas?
¿Qué flor pondré en el huerto cubierto por la nieve?
Arrojo este poema al fondo de la noche.


O FILHO MORTO

“O mundo já não é digno da palavra”
Javier Sicilia


O poeta tem escrito o último poema porque na rua,
só,
sem céu nem bandeiras,
jaze o filho tendido.
¿Como poderá os seus olhos saciar a minha caveira?
¿Como poderá a noite tapar seu rasto em mim?
¿Como poderei tirar do mar os seus trágicos cavalos e o carruagem de espelhos que o tem visto morrer?
Javier Sicilia oculta o seu rosto entre as mãos
¿Quem o pode tocar?
¿Com que acalanto se dormirá a morte?
¿Em que zona do corpo me esfaqueiam as suas lágrimas?
¿Que flor porei no horto coberto pela neve?
Arremesso este poema ao fundo da noite.


Traducción: Alberto Acosta

Hugo Francisco Rivella - Argentina

¿Qué quedará de mí?


¿Qué quedará de mí?
Soy el estampido de la bala.
Nada.
Lo que asusta al demente y lo trajina.
El miedo como un músculo adherido al hueso de una estatua.
¿Quién mirará este rostro cuando muera?
Solo sombra el recuadro en la penumbra.
Un rostro de otro rostro que no ha sido porque ha sido un pasar su voz y su estatura, sus lecciones de álgebra y moral,
la danza del hollín en el incendio.
En la fotografía queda mi soledad de espejo.


¿O que ficará de mim?


¿O que ficará de mim?
Sou o estampido da bala.
Nada.
O que assusta ao demente e o acarreta.
O medo como um músculo aderido ao osso duma estátua.
¿Quem olhará esse rosto coando mora?
Só sombra a moldura na penumbra.
Um rosto de outro rosto que não tem sido porque tem sido um passar a sua voz e os sua estatura, as suas lições de álgebra e moral,
a dança do fuligem no incêndio.
Na fotografía fica a minha solidão de espelho.


Traducción: Alberto Acosta

Fotografía: Aída Ovando

10 sept. 2011

Convite de Ronaldo Cagiano



Ao amigos e escritores, convido para o lançamento de meu novo livro

“O sol nas feridas”

Será um prazer contar com a presença de vocês.
Abraços
Ronaldo Cagiano


Dia: 21/9
Local: Casa das Rosas
Hora: A partir das 19h
Endereço: Av. Paulista, 37 - São Paulo – SP


***

24/9 – Belo Horizonte – MG
27/9 – Vitória – ES
30/9 – Brasília - CF

26 ago. 2011

Año 3 - Hoja N° 9 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Aída Ovando

Alexandre Marino - Brasil


A casa e o tempo


Séculos duram o tempo de um relâmpago
e as pedras se derretem
aos olhos fechados da memória.
A velha casa empedra-se no tempo
sobre a alma da terra
onde algum dia houve o nada,
o silêncio, desconhecidos elementos.

Algum deus inventou essas paragens
e houve de prever o que nem sabemos;
sobre o solo pousaram estas pedras
estáticas ao redor da viagem que invento.

Os séculos duram o tempo de um relâmpago
e relâmpagos cruzam o céu dos séculos.
Eis o espaço desta casa e seu espectro
e o espectro da criança senhora dos segredos
-uma e outra para sempre humanas.

(De: Arqueolhar - 2005)


La casa y el tiempo


Siglos duran el tiempo de un relámpago
y las piedras se derriten
a los ojos cerrados de la memoria.
La vieja casa se empiedra en el tiempo
sobre el alma de la tierra
donde algún día hube la nada,
el silencio, desconocidos elementos.

Algún dios inventó esos parajes
y hubo de prever lo que ni sabemos;
sobre el suelo posaron estas piedras
estáticas alrededor del viaje que invento.

Los siglos duran el tiempo de un relámpago
y relámpagos cruzan el cielo de los siglos.
Es el espacio de esta casa y su espectro
y el espectro de la niña señora de los secretos
-una y otra para siempre humanas.


Traducción: Alberto Acosta

Alexandre Marino - Brasil



Paisagem doméstica


É inverno, não importa o tempo, as horas.
O inverno se esconde nos raios do sol.

O fim de tarde arranha as gargantas.
Seres invisíveis inventam a escuridão.

Fecham-se as portas, a gente desvaira.
Um cheiro de café aponta o horizonte.
Deus implora abrigo entre as cortinas.
Pássaros guardam os cantos no terraço.

Vozes velejam no limiar do silêncio.
Noticias antigas no rádio invisível.
Vestígios de velhas fábulas.

Ninguém sabe a história inteira.
Evocam-se vazios invulneráveis.
O tempo é feito de destroços.

(De: Arqueolhar - 2005)


Paisaje doméstico


Es invierno, no importa el tempo, las horas.
El invierno se esconde en los rayos del sol.
El fin de tarde araña las gargantas.
Seres invisibles inventan la oscuridad.

Se cierran las puertas, la gente desvaría.
Un aroma de café apunta el horizonte.
Dios implora abrigo entre las cortinas.
Pájaros guardan los cantos en la terraza.

Voces alzan velas en el umbral del silencio.
Noticias antiguas en la radio invisible.
Vestigios de viejas fábulas.

Nadie sabe la historia entera.
Se evocan vacíos invulnerables.
El tiempo está hecho de destrozos.


Traducción: Alberto Acosta

Alexandre Marino - Brasil


Receita


No início, nada além de caos e fome
e uma rua que jorrava diante da janela.
Trouxeram farinha de trigo, açúcar, ovos,
que mãos remotas entornaram na gamela.

O mundo era um deserto sem destinos,
só um pouco de sal, bicarbonato, canela.
Havia ainda óleo de milho e margarina
para que a história se tornasse eterna.

Avó e tias trabalhavam com esmero
invocando o poder divino das essências
tempero do tempero de tantas iguarias;

O forno exalava calor e esperança,
que na mesa da cozinha se servia
para adoçar os abismos da infância.

(De: Arqueolhar - 2005)


Receta


Al comienzo, nada más que caos y hambre
y una calle que borboteaba delante de la ventana.
Trajeron harina de trigo, azúcar, huevos,
que manos remotas derramaron en el bollo.

El mundo era un desierto sin destinos,
sólo un poco de sal, bicarbonato, canela.
Había incluso aceite de maíz y margarina
para que la historia se tornase eterna.

Abuelo y tías trabajaron con esmero
invocando el poder divino de las esencias
condimento de condimento de tantos manjares;

El horno exhalaba calor y esperanza,
que en la mesa de la cocina se servía
para endulzar los abismos de la infancia.


Traducción: Alberto Acosta

Ernestina Elorriaga - Argentina


Ella


la puerta ha permanecido abierta
la mujer va y viene por el aire

el pasado se disipa en sus ojos de tiza
el futuro se expande casi ciego

sin embargo
el abismo

hay un umbral agobiado por el peso de su cuerpo

es el presente
ella ha perdido sus rostros
la puerta que no ve
la condena al infinito.


***


la llegada podría haber pasado inadvertida
pero
rozó lo irremediable
quedó registrada

de la grieta
nació un barco.


(De: Ella - 2011)


Ela


a porta permanecera aberta
a mulher vai e vem por o ar

o passado se dissipa nos seus olhos de giz
o futuro se expande quase cego

porém
o abismo

há um umbral agoniado pelo peso do seu corpo

é o presente
ela perdera os seus rostos
a porta que não vê
a condena ao infinito.


***


a chegada poderia ter passado despercebida
porém
roçou o irremediável
ficou registrada

da fenda
nasceu um barco.


Traducción: Alberto Acosta


Ernestina Elorriaga - Argentina

Ella


en la grieta agazapada
cuidaba el abismo
un pájaro la estremeció
en el inicio
ella
siempre aguardaba.


***


ella habla sola
quiere ser la espalda de una mujer
donde el viajero escriba sus secretos

ella
y su espalda hecha de arena.


***


ella vio detrás de sus ojos
una ciudad de mujeres insomnes
una puñalada
un graznido

inquietada la siesta
nada fue igual.


(De: Ella - 2011)

Ela

na fenda agachada
cuidava o abismo
um pássaro a estremeceu
no início
ela
sempre aguardava.



***

ela fala sozinha
quer ser as costas duma mulher
onde o viajante escriva seus segredos

ela
e as suas costas feitas de areia.


***


ela viu detrás dos seus olhos
uma cidade de mulheres insones
uma punhalada
um grasnido

inquietada a sesta
nada foi igual.


Traducción: Alberto Acosta


Ernestina Elorriaga - Argentina

Ella


el ojo huye del fuego
pero la mirada
a veces

vuelve.


***


los labios susurran
gestan palabras
no conocidas por la lengua
tal vez
las de un crimen perfecto

ave maría.


***


el fuego regresaba clandestino
ella comenzó a rezar
pésame
dios mío

no podía huir
la serpiente le besaba la hendidura de las sienes.


***


éramos tigres cebados
caminábamos en el canto del abismo
oliéndonos

en la hondura
el ojo del deseo.


(De: Ella - 2011)

Ela


o olho foge do fogo
mas o olhar
ás vezes

volta.


***


os lábios sussurram
gestam palavras
não conhecidas pela língua
tal vez
as de um crime perfeito

ave maria.


***


o fogo regressava clandestino
ela torno a rezar
pêsame
meu deus

não podia fugir
a serpente a beijava na fenda das têmporas.


***


éramos tigres cevados
andávamos no canto do abismo
cheirando-nos

na fundura
o olho do desejo.


Traducción: Alberto Acosta

Alberto Extremera - Argentina



El silencio


lo que está por surgir es el silencio
algo que de tan callado muerde y ciega
un cíclope de cielo roto que ruge
cuando nadie maúlla ladra o repta
lo que está por surgir es el insomnio
un hámster bípedo yendo por la casa
del nidito al baño al alimento
o a jugar en la rueda del poema
lo que está lo que surge
no me agrada y bebo
de la vasija muerdo mis pobres semillas
recuerdo mis ejercicios hago
ruido en la noche ya que el ojo
de afuera acecha
aprendo mi Braille sobre la tierra
mordida de rincones mórbidos
susurro o grito antes que resurja


O SILÊNCIO


O que está por vir é o silêncio
algo que de tão calado morde e cega
um ciclope do céu quebrado que urra
quando ninguém mia, late ou rasteja
o que está por vir é a insônia
um hamster bípede indo pela casa
do ninhozinho ao banheiro à comida
ou a brincar na roda do poema
o que está o que surge
não me agrada e bebo
da vasilha mordo minhas pobres sementes
lembro meus exercício faço
ruído na noite já que o olho
de fora espreita
aprendo meu Braille sobre a terra
abocanhada de rincões mórbidos


Traducción: Ronaldo Cagiano

Alberto Extremera - Argentina



Porque también somos lo que hemos olvidado


la rabia del presente
ese frágil amor
en el negro agujero
los hijos que se marchan
los hijos que se quedan
el tránsito veloz
por la ciudad mandíbula
la omisión las pequeñas
traiciones quebraduras
en el pelaje sucio
sangre de otras contiendas
no de robos rapiñas densos
líquidos yéndose
por las alcantarillas
voces de fondo cercos
por saltar semáforos trenes
aullantes y siempre
perros de riña sin objeto
sueltos por la calle





Porque também somos o que esquecemos



a raiva do presente
esse frágil amor
no negro agulheiro
os filhos que partem
os filhos que ficam
o trânsito veloz
pela cidade mandíbula
a omissão as pequenas
tradições fendas
na pelagem suja
sangue de outras contendas
não de roubos rapinagem densos
líquidos escapando-se
pelos esgotos
vozes de fundo cercos
por saltar semáforos trens
ululantes e sempre
cães de briga sem objetivo
soltos pela rua


Traducción: Ronaldo Cagiano

Alberto Extremera - Argentina

La vieja parrilla


a la vieja parrilla
quebrada en la mitad
por donde caen las brasas
no voy a tirarla ahora
tiene el grasero desenganchado
y la manija torcida
la traje empujando por la calle
a mi casa anterior
luego se mudó conmigo
al poeta que me la regaló
casi no lo veo
quebradas nuestras metáforas
por donde caen
hoy hay
un discurso desenganchado
la historia nuestra torcida
se mudó conmigo
no voy a tirarla
empujando la traje
éramos de hierro por la calle
donde caen las brasas




A velha grelha


a velha grelha
quebrada pela metade
por onde caem as brasas
não vou tirá-la agora
tem o braseiro solto
e o cabo torto
a trouxe empurrando pela rua
à minha casa anterior
logo se mudou comigo
ao poeta que me presentou
quase não o vejo
quebradas nossas metáforas
por onde caem
hoje há
um discurso desprendido
a nossa história distorcida
se mudou comigo
não vou tirá-la
empurrando o terno
éramos de ferro pela rua
onde caem as brasas


Traducción: Ronaldo Cagiano

3 ago. 2011

Año 3 - Hoja N° 8 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Aída Ovando

Iacyr Anderson Freitas - Brasil

A PRIMEIRA ILHA


a primeira ilha
o incêndio de tróia ardendo no meu corpo
a queda do primeiro fruto
a morte em cartago ou cajamarca
essa morte que vem como uma festa para os olhos
vem clamando aos povos
convocando adão antes da queda
buscando-o para a luz do dia
clara como um sino
o que se escreveu antes do verbo
as águas do aqueronte devorando meus filhos
os filhos que sepultei
invadindo as épulas como seu hedor e usura
a infãncia do eterno
os anéis de batismo que foram de um santo
e que são minha infãncia agora
o passado que tem o meu nome e a minha idade
o passado que sou eu e o esquecimento
dos que me precederam no sangue
a manhã primeira o exílio
os olhos os terríveis olhos de circe
o enterro de argos soando em copacabana
um homem que pensa outro homem na américa
um signo que não morreu de todo
e que esplende como um deus no vestíbulo
um signo que é toda a infãncia
todo o deserto
sísifo condenado à busca da pedra e do monte

: todo exílio que sou eu e que se esgotará comigo


LA PRIMERA ISLA


la primera isla
el incendio de Troya ardiendo en mi cuerpo
la caída del primer fruto
la muerte en Cartago o Cajamarca
esa muerte que viene como una fiesta para los ojos
viene clamando a los pueblos
convocando a Adán antes de la caída
buscándolo para la luz del día
clara como una campana
lo que se escribió antes del verbo
las aguas de Aqueronte devorando mis hijos
los hijos que sepulté
invadiendo las épulas como su hedor y usura
la infancia de lo eterno
los anillos de bautismo que fueron de un santo
y que son mi infancia ahora
el pasado que tiene mi nombre y mi edad
el pasado que soy yo y el olvido
de los que me precedieron en la sangre
la mañana primera del exilio
los ojos los terribles ojos de Circe
el entierro de Argos sonando en Copacabana
un hombre que piensa otro hombre en la américa
un signo que no murió del todo
y que resplandece como un dios en el vestíbulo
un signo que es toda la infancia
todo el desierto
Sísifo condenado a la búsqueda de la piedra y del monte

: todo exilio que soy yo y que se agotará conmigo


Traducción: Alberto Acosta

Luis Franco - Argentina

RÍO DE JANEIRO
a Pompeyo Audivert


Hijo del Sol y la Nube y adoptado por la Tierra,
Brasil.
He aquí un territorio que rebasa los mapas.
Aquí el invierno cruza el cielo sin hallar playas de aterrizaje.
Aquí se refugió el diluvio recostándose en el horizonte de los ríos.
Aquí los soles y las frutas son de tamaño doble.
Aquí el termómetro se guía por el nivel de los deseos y los sueños.
Aquí los senos de las mujeres maduran varias veces al año.
Aquí la savia se rebela contra la meteorología,
y los desbordes de cacao, de café, de madera, de azúcar, de caucho
amenazan inundarlo todo.
Aquí el prestigio de los diamantes no supera al de las víboras.
Aquí los calores del infierno revientan en corolas de edén.
Aquí la mitología se fragua ante nuestros ojos.
Aquí la geografía quiere pasar por encima del hombre y escribir la historia.
Guanabara, federación del sol, el agua, la montaña y el bosque.
La bahía da refugio y descanso de acquarium al océano.
Jaqueadas por su sed de cielo y nubes,
las palmeras ahílan tanto sus troncos
que una carcajada o un grito no puede romperlos.
Una cascada sale a un costado con la cándida novedad del alba.
El lomo de camello del Corcovado
apenas puede ya con su carga de siglos y esplendores.

Río de Janeiro merece todo esto y más
porque tiene algo mayor que sus iglesias y sus rascacielos.
Aquí los negros han sido ascendidos a personas.

Sólo que aún queda otro algo que eclipsa toda la pompa del trópico:
la miseria ya evitable e inútil en el mundo
se exhibe aquí como en su playa de moda.

Vemos una pierna de mendiga atravesar su tumefacto énfasis
hasta cuajar todo el tráfico de la Rúa Ouvidor,
y un mendigo dormido con la mano implorante en vigilia.

Mas la historia está hoy preñada de inminencia,
y aquí lo que vendrá mañana
no subirá de abajo como las huelgas o la primavera:
bajará de los rascacielos de cartones y latas,
desde lo alto de las favelas
descenderá -lava y escalofrío-
la liberadora albricia.



RIO DE JANEIRO
á Pompeyo Audivert


Filho do Sol e da Nuvem e adotado pela Terra,
Brasil.
Eis aqui um território que ultrapassa os mapas.
Aqui o inverno cruza o céu sem achar pistas de aterrissagem.
Aqui se acolhera o diluvio recostando-se no horizonte dos rios.
Aqui os soles e as frutas são de tamanho duplo.
Aqui os seios das mulheres amadurecem várias vezes no ano.
Aqui a seiva se rebela contra a meteorologia,
e os excessos do cacau, do café, da madeira, da açúcar, do caucho
ameaçam inundar tudo.
Aqui o prestígio dos diamantes no supera ao de as serpentes.
Aqui os calor do inferno rebenta em coroas do éden.
Aqui a mitologia se forja ante os nossos olhos.
Aqui a geografia quer passar por acima do homem e escrever a história.
Guanabara, federação do sol, da agua, a montanha e a mata.
A baía dá refúgio e descanso de acquarium ao oceano.
Xequeadas pela sua sede de céu e nuvens,
as palmas enfiam tanto os seus troncos
que uma gargalhada ou um grito não pode quebrá-los.
Uma cascata sai pra um costado com a cândida novidade da alvorada.
O lombo de camelo do Corcovado
quase não pode já com a sua carga de séculos e esplendores.

Rio de Janeiro merece tudo isto e mais
porque tem algo maior que a suas igrejas e os seus arranha-céus.
Aqui os pretos tem sido ascendidos á pessoas.

Só que ainda fica outro algo que eclipsa toda a suntuosidade do trópico:
a miséria já evitável e inútil no mundo
exibe-se aqui como na sua praia de moda.

Olhamos uma perna de mendiga atravessar o seu tumefato ênfase
até coalhar tudo o tráfico da Rúa Ouvidor,
e um mendigo adormecido com a mão implorante em vigília.

Mais a história é hoje prenhe de iminência,
e aqui o que virá amanhã
não subirá do abaixo como as greves ou a primavera:
baixará dos arranha-céus de cartões e latas,
desde o alto das favelas
descerá -lava e arrepio-
o libertador regozijo.


Traducción: Alberto Acosta

Luis Franco - Argentina

LOA DEL CUERPO SANO


Las bestias y las plantas te den el buen consejo:
contémplate en tu cuerpo tal como en un espejo.
Para tu gloria de hombre prolongada en la casta,
desnúdese tu cuerpo en la gimnasia casta,
como una estatua. Puro y audaz tu cuerpo entrega
a la gracia del aire y del sol. La diosa griega
te unja con su óleo. El juego armonioso y diverso
de tus músculos plázcate como el más bello verso.
No así como el asceta ni como la ramera,
sé dueño de tu cuerpo, que ésta es la ley primera.
Un cuerpo hermoso, fuerte, sano, qué noble palma.
Pero sirve a tu cuerpo para servir a tu alma.
¡Y no des uno al diablo ni la otra des a Dios
y ojalá te tuvieran sin cuidado esos dos!

Cuerpo, loado seas en tu carne y tu hueso
tus nervios y tu sangre, tu semen y tu seso.


LOA DO CORPO SÃO


Os bichos e as plantas te deem o bom conselho:
contempla-te no teu corpo como num espelho.
Para a tua glória de homem prolongada na casta,
desnude-se o teu corpo na ginástica casta,
como uma estátua. Puro e audaz o teu corpo entrega
á graça do ar e do sol. A deusa grega
unja-te com seu óleo. O jogo harmonioso e diverso
dos teus músculos te dês prazer como o mais belo verso.
Não assim como o asceta nem como a rameira,
apropries-te do teu corpo, que esta é a lei primeira.
Um corpo formoso, forte, são, que nobre louro.
Mais serve a teu corpo para servir á tua alma.
¡E não dês um ao diabo nem a outra dês a Deus
y oxalá te tiveram sem cuidado esses dois!

Corpo, louvado sejas na tua carne e o teu osso
teus nervos e a tua sangue, teu sêmen e os teus miolos.


Traducción: Alberto Acosta

Luis Franco - Argentina

A LA ALEGRÍA


Canto a la alegría
hija del día,
compañera alada:
¡la alegría ligera y sagrada!

La alegría que en el surtidor
numeroso de la risa
brota, y florece en la flor
de pétalos blancos y rojos
de la sonrisa.
O, más secreta y pura, sólo brilla en los ojos.

Hasta el fondo, hasta el fondo
de mí mismo, profundamente,
cavé para hallarla. (La fuente
más clara es la que viene de más hondo.)

Porque esto me enseñó la vida un día:
“Bello sin duda es el dolor;
pero, en verdad te digo, la alegría
es mejor.”


Á ALEGRIA


Canto á alegria
filha do dia,
companheira alada:
¡a alegria leve e sagrada!

A alegria que no fornecedor
numeroso do riso
brota, e floresce na flor
de pétalas brancas e vermelhas
do sorriso.
O, mais secreta e pura, só brilha nos olhos.

Até o fundo, até o fundo
de mim mesmo, profundamente,
cavei na sua procura. (A fonte
mais clara é a que vem do mais fundo.)

Porque isto me ensinou a vida um dia:
“Bela sem dúvida é a dor;
mais, na verdade te digo, a alegria
é melhor.”


Traducción: Alberto Acosta

Cataguases - Convite - Invitación

Emerson Texeira Cardozo - Brasil

De volta à casa paterna


Esta sentença tem um gosto de epígrafe
e serve tão bem ao meu estado d’alma...

O meu relógio parou com os ponteiros andando...

De repente a vida não segue...
pararam todos os relógios?


É isto:
Hoje não estou aqui:
Ontem sim, estive lá.



DE REGRESO A LA CASA PATERNA


Esta sentencia tiene un gusto a epígrafe
y sirve tan bien a mi estado del alma.

Mi reloj paró con las agujas andando...

De repente la vida no sigue...
¿pararan todos los relojes?

Es esto:
Hoy no estoy aquí:
Ayer sí, estuve allá.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Emerson Texeira Cardozo - Brasil

Símiles


A clausura das palavras em seu estado dicionário,
a solidão dos cemitérios quando não há enterros,
o silêncio das igrejas e monastérios,
a desolação das ruas quando faz frio e é noite,
o sono do trabalhador que descansa do que faz...

Tudo lembra a paz do serviço público após o expediente,
o silêncio completo de suas salas com ar-condicionado
[desligado.



SÍMILES


La clausura de las palabras en su estado diccionario,
la soledad de los cementerios cuando no hay entierros,
el silencio de las iglesias y monasterios,
la desolación de las calles cuando hace frio y es noche,
el sueño del trabajador que descansa de lo que hace...

Todo evoca la paz del servicio público detrás del expediente,
el silencio completo de sus salas con aire acondicionado
[apagado.



Traducción: Ronaldo Cagiano

Emerson Texeira Cardozo - Brasil

Desorientação


Não me fale mais no pós-moderno.
Não quero saber se há ligação
entre um microcomputador
e um sex shop.
Ora, deixe haver.
Se a massa consumista é melancólica
(posto que fascinada),
deixe ser.
Assim, você acaba por me deixar mais niilista
e, ainda que mal possa perguntar:
há mais alguma novidade no ar,
além desta folhinha que aprendeu a surfar?
Não ligue para os filósofos,
você é muito sensível.



Desorientación


No me hables más del post-moderno.
No quiero saber si hay ligazón
entre una microcomputadora
y un sex shop.
Ahora, deja haber.
Si la masa consumista es melancólica
(supuesto que fascinada),
deja ser.
Así, usted acaba por dejarme más nihilista
y, no obstante mal puede preguntar:
¿hay además alguna novedad en el aire,
más allá de esta hojita que aprendió surfear?
No escuche a los filósofos,
usted es muy sensible.



Traducción: Ronaldo Cagiano

Emanuel Medeiros Vieira - Brasil

EXILIO


Há um Atlântico nesta separação:
Coração batido segue as ondas de maio.
Desterros além da anistia,
para lá dos poderes.
Suportaremos tantos exílios?

Já não bastam os selos,
a escrita crispada,
queria os sinais de tua pele,
vacinas, umidades, penugens, pelos perdidos
no mapa do corpo, olhar suplicantes, soluços.

Seguiram-se as jornadas,
missas de sétimo-dia,
retratos arcaicos,
outro exílio:
sem batidas na boca-da-noite, armas, fardas,
medos, clandestinidades.

Sol neste retorno:
a casa, o guarda-chuva no porão, a caneca de barro,
álbuns, abraço agregador,
cheiro de pão que vem de algum lugar,
o amanhecer junta os dois nós da memória,
o menino e o seu outro:
estou melhor, feito vinho velho.



EXILIO


Hay un Atlántico en esta separación:
Corazón batido sigue las olas de mayo.
Destierro más allá de la amnistía,
más allá de los poderes.
¿Soportaremos tantos exilios?

Ya no bastan los sellos,
lo escrito crispado,
quería las señales de tu piel,
vacunas, humedades., pelusas, pelos perdidos
en el mapa del cuerpo, miradas suplicantes, sollozos.

Continuarán las jornadas.
misas del séptimo día,
retratos arcaicos,
otro exilio:
sin razia en la boca de la noche, armas, uniformes,
miedos, clandestinidades.

Sol en este retorno:
la casa, los paraguas en el sótano, la copa de barro,
álbumes, abrazo acogedor,
olor de pan que viene de algún lugar,
el amanecer junta los dos nudos de la memoria,
el niño y su otro:
estoy mejor, como vino añejo.


Traducción: Ronaldo Cagiano

2 jul. 2011

Año 3 - Hoja N° 7 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Agostina Rosso

Anderson Braga Horta (Brasil)

BIOGRAFIA


Mínima nave, me perco,
e de perdido me encontro,
por estes mares noturnos
de tempestade. Santelmo
a arder na ponta dos mastros:
flâmula breve que agito
à face oculta dos astros.
Meu corpo, verdeprecária
crosta de limo na pedra,
arde e passa. Arde e fica
meu sonho, incêndio no charco.

E circunscreve o infinito.


BIOGRAFÍA


Mínima nave, me pierdo,
y de perdido me encuentro,
por estos mares nocturnos
de tempestad. Santelmo
ardiendo en la punta de los mástiles:
flámula breve que agito
a la cara oculta de los astros.
Mi cuerpo, verde-precaria
costra de limo en la piedra,
arde y pasa. Arde y queda
mi sueño, incendio en el charco.

Y circunscribe lo infinito.


Traducción: Nahuel Santana

Anderson Braga Horta (Brasil)

SONETO RETRÓGRADO


Atento escuto as vozes do silêncio.
Na solidão do ser em que me esqueço,
Jeová veste o universo pelo avesso...
O brejo desafia o céu — e vence-o!

Quer a alma vestir-se como o lírio,
A mirar-se do azul no espelho ardente:
Quer o sonho ser já o que se pressente,
Flor de nada em sua haste de hidrargírio!

Oh! a rosa do espírito, almo duende,
Cujo interno esplendor no olhar assoma!
Pura essência infinita é o cárneo aroma

Da matéria que, esfeita, em glória ascende.
Nas asas de invisíveis albatrozes,
Atento escuto do silêncio as vozes...




SONETO RETRÓGRADO


Atento oigo las voces del silencio.
¡Oh, soledad del ser, con quien converso,
Jehová viste al revés el universo...
El cieno desafía al cielo y venzo.

Quiere el alma vestirse como lirio,
Para mirarse en el espejo ardiente:
Quiere el sueño ser ya lo que presiente,
Flor de nada en su asta de mercurio.

¡Oh, rosa del espíritu, almo duende,
Cuyo esplendor en la mirada asoma!
Es esencia infinita el cárneo aroma

De la materia que a la gloria asciende.
En invisibles pájaros veloces,
Atento del silencio oigo las voces.


Traducción: José A. Pérez

Fotografía: Aída Ovando

Anderson Braga Horta (Brasil)

O DEUS QUE CHORA


Baldado é perguntar. Na andina altura,
surdos, os megalíticos ouvidos
nada entendem. Se entendem, pétrea, a boca
mastiga as flores mudas do mistério.

É o Deus Que Chora. Inútil despertá-lo,
se desperto sempre é, petrificado.
Exibe a face obscura do segredo.
Dentro incaico não é, pois mais: humano.

Baldado é perguntar, porque a resposta
na pedra está, mais treva que o silêncio.
Não nos propõe esfíngico dilema,

senão que lhe bebamos a mensagem,
o Grande Deus de cujo olhar escorrem
as cabeças dos filhos decepadas.



EL DIOS QUE LLORA


En vano es preguntar. La altura andina,
sordos los megalíticos oídos,
nada escucha. Si escucha, pétrea boca
muerde las flores mudas del misterio.

Ese es el Dios que Llora. Despertarlo
es inútil, pues siempre está despierto.
Muestra la faz oscura del secreto.
No es incaico por dentro, sino humano.

En vano es preguntar, porque responde
la piedra, más oscura que el silencio.
No nos propone esfíngico dilema,

sino que le bebamos el mensaje,
el Gran Dios que en sus lágrimas escurre
de los hijos las cabezas truncadas.


Traducción: Francisco Bello

Anderson Braga Horta (Brasil)

ÓRFICA

I

Que ser é esse de que o céu se espanta?

O corpo esquartejado
levam-no os rios, bebem-no os mares,
vai com o vento nos ares.
Faz-se terra na terra.
Torna-se nada em todos os quadrantes.

Mas a cabeça canta.

II
Que corpo é esse
arcaico
animado de um fogo
entre o sagrado e o laico?
Corpo que se destroça,
fogo que se levanta.

III
Ai, o corpo se esfaz em limo, em lama.
As pernas, extintas, erram por seiva.
As mãos, arrancadas, crispam-se por frutos.

Mas a cabeça
canta!



ÓRFICA

I

¿Qué ser es ese que aún al cielo espanta?

A su cuerpo cuarteado
lo llevan los ríos, lo beben los mares,
lo sube el viento al aire.
Se hace tierra en la tierra.
Se vuelve nada en todos los cuadrantes.

Mas la cabeza canta.

II
¿Qué cuerpo es ese
arcaico
animado de un fuego
entre sagrado y laico?
Cuerpo que se destroza,
fuego que se levanta.

III
El cuerpo se deshace en limo, en lama.
Las piernas, extintas, yerran por savia.
Las manos, arrancadas, críspanse por los frutos.

Mas la cabeza
¡canta!


Traducción del Autor

Horacio Preler (Argentina)

SÍMBOLOS


Un extranjero recorre las calles
de una ciudad desconocida.
El misterio se encierra
en los extraños laberintos.
Los hombres pasan unos junto a otros,
sólo los viejos conocidos se saludan
con las ceremonias de costumbre.
Nos entendemos pobremente,
apenas delineamos los contornos del gesto
articulando símbolos heroicos
para superar el desamparo.

(De: Lo abstracto y lo concreto, 1973)


SÍMBOLOS


Um estrangeiro percorre as ruas
de uma cidade desconhecida.
O mistério termina
nos estranhos labirintos.
Os homens passam uns junto aos outros,
somente os velhos conhecidos se saúdam
com as cerimônias de costume.
Entendemo-nos pobremente,
apenas delineamos os contornos do gesto
articulando símbolos heroicos
para superar o desamparo.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Horacio Preler (Argentina)

MEMORIA DE LA MUERTE


Saber que morimos, ésa es la duda final
de la existencia. Morir hacia caminos de esperanza,
la última palabra decisiva modelando epitafios
y la voz de la golondrina verde del verano.
Saber que el tiempo es un aliado de la muerte
depositando sus retoños,
acumulando reseñas de quebrantados nombres.
La muerte, con su consigna total,
reconcentrada en su dominio inexpugnable,
dominadora de las horas,
plenitud del alma ya inexistente.
Y después esta vida,
así, crujiendo en el honor o la nostalgia,
la vida sin valor y sin memoria
enorme aposento sin emblema dilatando el espacio
con tibios escalones.
La muerte detiene cada día la hojarasca o la voz,
pequeña lámpara que asesina sin culpa
como una amante en una tarde oscura del invierno.
La muerte como una cotidiana materia
que dibuja su solitaria imagen,
llamado incipiente que se desnuda como un hueso,
un esqueleto húmedo y vacío, cortejando la luz,
entregando a la aurora su habitante final.
La muerte general en su ilimitada mansedumbre
y su teñida voz,
que se entrega una vez a la respuesta inalcanzable
legada a la última algarabía del verano,
la íntima plegaria
que cabe en el dedo unánime del tiempo.


(De: Oscura Memoria, 1992)


MEMÓRIA DA MORTE


Saber que morremos, eis a dúvida final
da existência. Morrer em direção aos caminhos da esperança,
a última palavra decisiva modelando epitáfios
e a voz da andorinha verde do verão.
Saber que o tempo é um aliado da morte
depositando sua prole,
acumulando comentários de alquebrados nomes.
A morte, com seu lema total,
reconcentrada em seu inexpugnável domínio,
dominadora das horas,
plenitude da alma inexistente.
E após esta vida,
assim, rangendo o horror ou a nostalgia,
a vida sem valor e sem memória
enorme sala sem emblema dilatando o espaço
com frouxos degraus.
A morte detém cada dia o lixo ou a voz,
pequena lâmpada que assassina sem culpa
como uma amante em uma tarde escura de inverno.
A morte como uma matéria quotidiana
que desenha sua solitária imagem,
chamado incipiente que se despe como um osso,
um esqueleto úmido e vazio, cortejando a luz,
entregando à aurora seu habitante final.
A morte geral em sua ilimitada mansidão
e sua tingida voz,
que se entrega uma vez à resposta inalcançável
doada à última algaravia do verão,
à íntima súplica
que cabe no dedo unânime do tempo.

Traducción: Ronaldo Cagiano

Horacio Preler (Argentina)

PALABRA FINAL


Hoy hemos regresado de la infancia
casi sin darnos cuenta,
sin poner en los registros la hora de partida.
Regresamos del pasado
con la retina herida y el hueso carcomido.
Los dedos parecían dardos
tirados sobre un blanco perfecto,
marcas de las uñas sobre la piel
y un hondo peregrinaje
hacia el lugar iluminado de la carne,
aquello que integra la miel y la leche
de la última palabra.

(De: Zona de Entendimiento, 1999)


PALAVRA FINAL


Hoje regressamos da infância
quase sem nos darmos conta,
sem por nos registros a hora da partida.
Voltamos do passado
com a retina ferida e o osso carcomido.
Os dedos pareciam dardos
arremessados sobre um branco perfeito,
marcas das unhas sobre a pele
e uma profunda peregrinação
tomava o lugar iluminado da carne,
aquilo que integra o mel e o leite
da última palavra.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Horacio Preler (Argentina)

LA PARED

Todas las mañanas un hombre
levanta las paredes de su casa.
Sube a los andamios; el sol brilla en su piel.
Abajo, sus hijos juegan con la arena.
Está solo.
Quizá piensa en la mujer que tuvo
o en la época en que fue feliz.
Cuando termina su trabajo,
recoge sus herramientas
y regresa por el mismo camino que llegó.

(De: La razón migratoria, 1977)



A PAREDE

Todas as manhãs um homem
levanta as paredes de sua casa.
Sobe nos andaimes; o sol brilha em sua pele.
Embaixo, seus filhos brincam com a areia.
Está sozinho.
Talvez pense na mulher que teve
ou na época em que foi feliz.
Quando termina seu trabalho,
recolhe suas ferramentas
e volta pelo mesmo caminho que chegou.



Traducción: Ronaldo Cagiano

1 jun. 2011

Año 3 - Hoja N° 6 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Mariana Carmona

Carlos Garro Aguilar - Argentina

ES OTOÑO Y EL AIRE SE ADELGAZA


Al fondo del callejón de la nostalgia
pasa el río ante la sombra de tu cuerpo,
ante la sombra de mi cuerpo que te busca
deslumbrado y sediento, entre la hierba.

Es Abril y el aire de adelgaza,
las bandadas regresan,
pero insomne el recuerdo te desnuda
junto al hogar de la vieja casona
escondida en el tiempo.

Luaba de la lluvia, de la dulce hojarasca
que danza hacia el olvido.
Luaba, ala alta, pura, fugitiva,
símil ardiente del ángel de las frondas.

Es otoño y el aire se adelgaza.
Grácil murmura el agua bajo el límpido
sortilegio del día.

Vulnerable,
inventan las palabras,
tu regreso.


(De: Salvaje Estío - 2010)



É OUTONO E O AR SE EMAGRECE

 
Ao fundo do beco da nostalgia
passa o rio por ante a sombra do teu corpo,
por ante a sombra do meu corpo que te procura
deslumbrado e sedento, por entre o capim.

É Abril e o ar se emagrece,
as revoadas regressam,
mais insone a lembrança te despia
junto a lareira do velho casarão
escondido no tempo.

Luaba da chuva, da doce folharada
que dança até o esquecimento.
Luaba, asa alta, pura, fugitiva,
símile ardente do anjo das frondes.

É outono e o ar se emagrece.
Grácil murmura a água sobe o límpido
sortilégio do dia.

Vulnerável,
inventam as palavras,
teu regresso.


Traducción: Alberto Acosta

Carlos Garro Aguilar - Argentina

HAY UNA AUSENCIA LUMINOSA MOJADA DE DESEO


El verano partió y por la alcoba, insomne,
discurre tu fragancia.
Ángeles de almizcle y madreselva
para exhumar sobre la almohada
el vórtice escurrido del deseo.

Hay una ausencia luminosa que alimenta tu sombra.
Oquedad sin materia donde estalla tu nombre.
Cae una hoja, el gato se acurruca, lejos, un pájaro
enciende los metales de la tarde.

Y las manos aquí, hilvanando en el aire,
una caricia hambrienta,
descargando en las sombras
la insomne memoria de las yemas,
la dulce fosforescencia
que robó de tu cuerpo.

El verano partió y por la casa
hay una ausencia luminosa mojada de deseo.


(De: Salvaje Estío - 2010)



HÁ UMA AUSÊNCIA LUMINOSA MOLHADA DE DESEJO


O verão partiu e pela alcova, insone,
reflete a tua fragrância.
Anjos de almíscar e madressilva
para exumar sobre o travesseiro
o vórtice escorrido do desejo.

Há uma ausência luminosa que alimenta a tua sombra.
Vazio sem matéria onde explode o teu nome.
Cai uma folha, o gato se aconchega, longe, um pássaro
acende os metais da tarde.
E as mãos aqui, alinhando no ar,
uma carícia faminta,
descarregando nas sombras
a insone memória das gemas,
a doce fosforescência
que roubou do teu corpo.

O verão partiu e pela casa
há uma ausência luminosa molhada de desejo.

 
Traducción: Alberto Acosta

Carlos Garro Aguilar - Argentina

HUELE A FLORES DE PARAÍSOS....


Huele a flores de paraísos y es Octubre.
Aire para tu rostro límpido que vuelve con la lluvia
de la infancia,
aire para que mis ojos inventen en el aire,
la tibieza lila de tu frente, el aroma lila de tu pelo,
para que mis labios recobren el sabor a paraíso en flor
de tu sexo entreabierto.

Viajas de la memoria a las palabras,
Desde el perfume a las palabras,
desde tu piel a las palabras.
Entre ellas respiras,
entre ellas te yergues y me miras.
Desde ellas se alza tu mano y me toca.

Huele a flores de paraísos y es Octubre.

Huelen a flores de paraíso las palabras.


(De: Salvaje Estío - 2010)



CHEIRA A FLORES DE PARAÍSOS....

 
Cheira a flores de paraísos e é Outubro.
Ar para o teu rosto límpido que volta com a chuva
da infância,
ar para que os meus olhos inventem no ar,
a tibieza lilás da tua testa, o aroma lilás do teu cabelo,
para que os meus lábios recobrem o sabor de paraíso em flor
do teu sexo entreaberto.

Viajas da memória as palavras,
Desde o perfume as palavras,
desde a tua pele as palavras.
Entre elas respiras,
entre elas te ergues e me olhas.
Desde elas alça-se a tua mão e me toca.

Cheira a flores de paraísos e é Outubro.

Cheira a flores de paraísos as palavras.


Traducción: Alberto Acosta

Irene Gruss - Argentina

LA BURLA


La desesperación no tiene forma,
no es estética.
El lenguaje se pudre.
Hay un cálculo cabal de Thanatos y
una burla del destino.


(De: Solo de Contralto – 1997)




O ESCÁRNIO


O desespero não tem forma,
não é estética.
O idioma apodrece.
Há um cálculo perfeito de Thanatos e
um escárnio do destino.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Irene Gruss - Argentina

SILENCIO


Es aquí un misterio natural,
aquí donde el silencio es mago,
mi señor. Lo único que cruje es el pasto.
El amor resuena
como un verso antiguo.
Resuena menos que el silencio
y más que los grillos.
Nadie ocupará su lugar, su silla.
Canta conmigo como yo,
con la boca cerrada. Tranquilo como yo despierta
y pone a mover las cosas,
a que hagan su ruido. El silencio sabe
por qué calla; hace decir y calla.
Misterio natural a la hora dorada.


(De: La dicha - 2004)




SILÊNCIO


Aqui é um mistério natural,
aqui onde o silêncio é mago,
meu senhor. A única coisa que aparece é a grama.
O amor ressoa
como um verso antigo.
Ressoa menos que o silêncio
e mais que os grilos.
Ninguém ocupará seu lugar, sua cadeira.
Canta comigo como eu,
com a boca fechada. Calmo como eu ao acordar
e faz mover as coisas,
para que façam seu ruído. O silêncio sabe
por que silencia; feito para dizer e calar.
Mistério natural quando da hora dourada.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Irene Gruss - Argentina

MUJER IRRESUELTA
para Sergio Kern


Yo quisiera, como Gauguin, largar
todo e irme,
dejar mi familia, la no tan sólida
posición
e irme a escribir a alguna isla
más solidaria.
Esa tranquilidad de Gauguin.
permanecer en una isla
tan calurosa, donde las mujeres
escupen resignadas
carozos de fruta silvestre.


(De: El mundo incompleto - 1987)




MULHER NÃO RESOLVIDA



Gostaria, como Gauguin, largar
tudo e ir-me,
deixar minha família, a não tão sólida
posição
e ir escrever em alguma ilha
mais solidária.
Essa tranqüilidade de Gauguin,
permanecer em uma ilha
tão quente, onde as mulheres
cospem resignadas
caroços de fruta silvestre.


Traducción: Roland Cagiano

Pedro Du Bois - Brasil

OUVIR
 
 
Ouço o barulho
alguém precede ao tempo
e o entulha
com obras imaginárias

a atmosfera se encarrega
da oxidação do fato

ouço o grito do pássaro
e alguém prossegue seu trabalho
em obras imaginadas

a praia
salitre sobre a área
se encarrega da posteridade.

 
(Pedro Du Bois, inédito)


OIR
 
 
Oigo el barullo
alguien precede al tiempo
y lo abarrota
con obras imaginarias

la atmósfera se encarga
de la oxidación del hecho

oigo el grito de pájaro
y alguien prosigue su trabajo
en obras imaginadas

la playa
salitre sobre el área
se encarga de la posteridad.

 
Traducción: Alberto Acosta

Pedro Du Bois - Brasil

RESTOS E SOBRAS

 
Nada resta
do destino
vendido em pouco
peso
preso
aos compromissos

o ressurgido grito
se ausenta

a anomalia das vertentes
secam ventres
e se despedem em luzes

o medo esconde a face
e as lágrimas secam
ao vento.


(Pedro Du Bois, inédito)



RESTOS Y SOBRAS

 
Nada resta
del destino
vendido en poco
peso
preso
a los compromisos

el resurgido grito
se ausenta

la anomalía de las vertientes
secan vientres
y se despiden en luces

el miedo esconde la cara
y las lágrimas secan
al viento.


Traducción: Alberto Acosta

Pedro Du Bois - Brasil

CENTRO
 
 
Sendo centro sofre
as modificações: raça submetida
ao cansaço no trabalho,
o espaço invadido por insetos,
o pedaço consumido pelo inimigo,
a vontade insaciável de estar
presente, a súbita morte.

Perde a identidade caótica
de ser humano: desconhece
a dimensão arbitrária onde se encontra.

Sendo centro, não percebe as bordas
e vaga o vazio onde se incomoda.

Sobre o universo pairam dúvidas
de acobertamentos: centro
distanciado em tempos.

(Pedro Du Bois, inédito)



CENTRO

 
Siendo centro sufre
las modificaciones: raza sometida
al cansancio en el trabajo,
el espacio invadido por insectos,
el pedazo consumido por el enemigo,
el deseo insaciable de estar
presente, la muerte súbita.

Pierde la identidad caótica
de ser humano: desconoce
la dimensión arbitraria donde se encuentra.

Siendo centro, no percibe los bordes
y vaga por el vacío donde se incomoda.

Sobre el universo planean dudas
de encubrimientos: centro
distanciado en tiempos.


Traducción: Alberto Acosta

13 may. 2011

Año 3 - Hoja N° 5 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Aída Ovando

Leonardo Martinez (Argentina)

DESTINO COMÚN - Poema V



Yo soy nadie
y me enterrarán vestido de nadie
Los ríos mueren en el mar
o se insumen en los arenales
En ambos casos ingresan a caudales plenos
Yo soy nadie
luego entraré de muerto a la nada
deslucido nombre
para llamar al opulento reino
de cambios y mutaciones infinitas
Ayer nomás tallé este petroglifo
antes fui pez también fugaz insecto
mono fraterno y habitante de Lemuria
Soy nadie
y me enterrarán vestido de nadie
destino de hombre acaudalado de palabras


(de Estricta Ceniza - 2005)


DESTINO COMUM – Poema V



Eu não sou ninguém
e me enterrarão vestido de ninguém
Os rios morrem no mar
ou se consomem na areia
Em ambos casos ingressam em rios caudalosos e cheios
Eu não sou ninguém
logo entrarei como morto ao nada
ofuscado nome
para convocar ao opulento reino
de mudanças e mutações infinitas
Ainda ontem gravei essa inscrição
antes fui peixe e também fugaz inseto
macaco fraterno e habitante da Lemúria
Não sou ninguém
e me enterrarão vestido de ninguém
destino de homem rico de palavras



Traducción: Ronaldo Cagiano

12 may. 2011

Leonardo Martinez (Argentina)

a Cuty Yurilli de Barrionuevo


DESDE EL HUMO de las cocinas negras
diosas de largas cabelleras
regían los destinos de la casa
Caldos ardientes
enjoyados guisos
violentas frituras
desfilaban por la mesa de silencios
donde el niño comía
los trasudados martirios
mientras los pechos de la madre
empollaban la muerte
con dulzura de sagrario
En los claustros divinos
tocadores llenos de ungüentos
despedían ácidos olores
y borrosos al tenue resplandor de las candelas
cujas
doseles
reclinatorios
Reino nocturnal pálido y sombrío
Caliente rencor de los encierros

Pero el día era un gigante
amigo del sol
Al alba los caballos
como una promesa de eternidad
estaban listos
entonces montábamos hacia las cumbres
y eran nuestros el horizonte y las distancias


(de Asuntos de Familia - 1997)




a Cuty Yurilli de Barrionuevo

DESDE A FUMAÇA das cozinhas negras
deusas de longas cabeleiras
regiam os destinos da casa
Caldos ardentes
preciosos guisados
violentas frituras
desfilavam pela mesa de silêncios
onde o menino comia
os surrados martírios
enquanto os peitos da mãe
chocavam a morte
com doçura de santuário
Nos claustros divinos
armários cheios de unguentos
exalavam ácidos odores
e apagados ao tênue resplendor das velas
cujas
dosséis
genuflexórios
Reino noturno pálido e sombrio
Ardente rancor das reclusões

Mas o dia era um gigante
amigo do sol
Ao amanhecer os cavalos
como uma promessa de eternidade
estavam prontos
então montávamos até os cumes
e eram nossos o horizonte e as distâncias



Traducción: Ronaldo Cagiano

Leonardo Martinez (Argentina)

DE LA INFANCIA QUEDA TODO
intacto.
Clausuras llenas de plegarias,
palabras como flores marchitas,
amonestaciones de próceres
quemándose en cielos de sequía,
besos y caricias guardados
en un corazón de monedero.

Nunca fuimos más paganos.
Ríos, montes, desiertos,
eran nuestro cuerpo.

Como pequeños dioses
amábamos el placer,
su pelambre de seda.
Así creamos jardines
de pájaros visionarios y corzuelas sabias,
paraíso de palomas
que todavía ensayan su vuelo
en mi corazón desterrado.


(de El Señor de Autigasta - 1994)



DAS CRIANÇAS TUDO PERMANECE
intacto.
Clausuras cheias de orações,
palavras como flores murchas,
admoestação de heróis
queimando-se em céus secos,
beijos e carícias guardados
em um coração de porta-moedas.

Nunca fomos mais pagãos.
Rios, montes, desertos,
eram nosso corpo.

Como pequenos deuses
amávamos o prazer,
sua pelagem de seda.
Assim criamos jardins
de pássaros visionários e veados sábios,
paraíso de pombas
que ainda ensaiam seu voo
em meu coração desterrado.



Traducción: Ronaldo Cagiano

Mariana Ianelli (Brasil)

MISSIONÁRIOS

Entram como se eu mesmo
Lhes tivesse aberto a porta.
Exigem-me calma e silêncio.

Guardo na casa algo que
Lhes pertence, eles dizem.
Num gesto profundo
Peço que me desculpem:
Desconheço o que seja.

Mas já cada coisa, em cada lugar,
Está virada ao avesso –
Areia no vento, restos de ninguém.

Passam-se dias e cá estão eles,
Entornando o vazio, remexendo,
Perseguindo em vão, destruindo.
Nada a fazer, senão ajudá-los
Nesta busca malsucedida,
Nada que eu mais queira agora,
Senão juntar-me a eles, quadrilha.

Certa noite, resolvemos partir.
Mascarados, em grupo,
Tomamos a casa vizinha.
Diante da porta um homem se detém.
Exigimos-lhe calma e silêncio.


Do livro Fazer Silêncio (ed. Iluminuras, 2005)



Misioneros


Entran como si yo mismo
Les hubiese abierto la puerta.
Me exigen calma y silencio.

Guardo en la casa algo que
Les pertenece, ellos dicen.
En un gesto profundo
Pido que me disculpen:
Desconozco lo que sea.

Pero ya cada cosa, en cada lugar,
Está dada vuelta, en un continuo revés –
Arena en el viento, restos de nadie.

Pasan los días y acá están ellos,
Entornando el vacío, removiendo,
Persiguiendo en vano. Destruyendo.
No hay nada que hacer, sino ayudarlos
En esta búsqueda mal sucedida,
Nada que yo más quiera ahora,
Sino juntarme a ellos, cuadrilla.

Cierta noche, resolvimos partir.
Enmascarados, en grupo,
Tomamos la casa vecina.
Delante de la puerta un hombre se detiene.
Le exigimos calma y silencio.


Traducción: M. Palacios

Mariana Ianelli (Brasil)

Fênix


Esgota-me até o osso,
Mas não agora, não ainda.
Deixa-me que antes eu repita
A história de antigas religiões
E que eu exercite minha fé,
Mesmo que Deus não exista.

Arranca-me o que possuo
Antes que venham os outros
E que tua força me soterre
Sob um monte de cinzas.
Faz-me livre de perguntas,
Como se nada mais pudesse ser dito.

Dá-me o abraço do adeus
Na hora que me foi prometida.
Eu terei retornado à minha origem,
Selando em mistério o indício da partida,
A cabeça despovoada de nuvens,
As chagas caladas em cicatrizes.


Do livro Fazer Silêncio (ed. Iluminuras, 2005)


Fénix


Agótame hasta el hueso,
Pero no ahora, no todavía.
Déjame que antes yo repita
La historia de antiguas religiones
Y que ejercite mi fe,
Aunque Dios no exista.

Arráncame lo que poseo
Antes que vengan los otros
Y que tu fuerza me cubra
Bajo un montón de cenizas.
Hazme libre de preguntas,
Como si nada más pudiera ser dicho.

Dame el abrazo del adiós
A la hora que me ha sido prometida.
Yo habré retornado a mi origen,
Sellando en misterio el indicio de la partida,
La cabeza deshabitada de nubes
y las llagas enmudecidas en cicatrices.


Traducción: M. Palacios

Mariana Ianelli (Brasil)

ABSOLUTO


Para estar em Deus
Há que se provar pelo tato
O rancor dos temporais,
A calma gentil dos regatos,
O segredo das grutas e das ribanceiras.

Para ouvir o canto
De uma sabedoria ignorante de si mesma
E conhecer o topo da coragem
Que as ilíadas desconhecem,
Há que se amar o irracional
Em seu embrião de consciência.

Para entender a razão dos inocentes
E a vitória do instinto
Sobre a conspiração do contingente,
Há que se viver na pele de um animal
E cumprir uma existência inteira
Só pela força dos cornos e dos dentes.

Para desvendar os humores da natureza
De que se fazem as estações do tempo,
Há que se voltar para a terra, em corpo e mente,
E tirar do sal o que se dá a uma semente.
Ser em si o agora-e-sempre. Na morte, ser silêncio.


Do livro Fazer Silêncio (ed. Iluminuras, 2005)


Absoluto


Para estar en Dios
Hay que probar por el tacto
El rencor de los temporales,
La calma gentil de los arroyos,
El secreto de las grutas y de los despeñaderos.

Para oír el canto
De una sabiduría ignorante de sí misma
Y conocer la cima del coraje
Que las ilíadas desconocen,
Hay que amar lo irracional
En su embrión de conciencia.

Para entender la razón de los inocentes
Y la victoria del instinto
Sobre la conspiración de lo contingente,
Hay que vivir en la piel de un animal
Y cumplir con una existencia entera
Tan sólo por la fuerza de los cuernos y de los dientes.

Para develar los humores de la naturaleza
Con los que se hacen las estaciones del tiempo,
Hay que volverse hacia la tierra, en cuerpo y mente,
Y sacar de la sal lo que se da a una semilla.
Ser en sí el ahora-y-siempre. En la muerte, ser silencio.


Traducción: M. Palacios

Marcelo Benini (Brasil)

ALGUNS POEMAS


Ainda menino,
Conheci um sapo regisseur
Desde então, tenho ouvido absoluto
Para a pandorga.





Passava as horas assim
Num espreitar de passarinhos
Assim passava o tempo
Assim a vida passaria
Se não fosse o amor
Se não fosse o amor
Seria passarinho.


(O Capim Sobre o Coleiro - 2010)


Algunos Poemas


Todavía niño,
Conocí un sapo regisseur
Desde entonces, tengo oído absoluto
Para el barrilete.

 
x


Pasaba las horas así
En un acechar de pajaritos
Así pasaba el tiempo
Así la vida pasaría
Si no fuese por el amor
Si no fuese por el amor
Sería pajarito.


Traducción: Alberto Acosta

Marcelo Benini (Brasil)

ALGUNS POEMAS



Às vezes recebia no quarto um sanhaço
E despia-se para o enleio
Olvidava o que tinha de casca,
Preferindo a brisa
O traupídeo, porém, tinha dogmas de asa e partia
O vento e a noite encolhiam-na a residuozinho de gente




Deus está no gosto
Deus é travo
Deus está no olho
Deus é cisco
Deus está nas putas
Deus é um amor perdido
Deus está na janela
Deus repara em tudo


(O Capim Sobre o Coleiro - 2010)


Algunos Poemas


A veces recibía en mi cuarto una tangara
Y se desnudaba para el embeleso
Olvidaba lo que tenía de cáscara,
Prefiriendo la brisa
El plumífero, sin embargo, tenía dogmas de ala y partía
El viento de la noche la encogía a residuito de gente

 
x
 
 
Dios está en el gusto
Dios está disgustado
Dios está en el ojo
Dios es basurita
Dios está en las putas
Dios es un amor perdido
Dios está en la ventana
Dios repara en todo


Traducción: Alberto Acosta

Marcelo Benini (Brasil)

ALGUNS POEMAS


Um dia houve um cismar de adélias na beira do rio
Os peixinhos se regalaram de sol
Os bem-te-vis de azul
Sob o sol da tarde as cercas crinavam de éguas
E os arames se resignaram das farpas, como rosas
Os canários ignoravam os espinhos
Para docemente pegar cabelos baios e nidificar o mundo
Os canários chegavam o mundo para o amarelo
Do outro lado, o rio plangia.

Sei de canários, sanhaços e coleiros
Torturados em gaiolas de bar
Também eles perderam,
Os pequenos bêbados.
De que sentem falta,
Do vôo, do pouso, de amar?
Eu também sou um deles,
Pendurado em mesa de bar
De que sinto falta,
Do vôo, do pouso, de amar?


(O Capim Sobre o Coleiro - 2010)


Algunos Poemas


Un día hubo un cavilar de adelias en la orilla del río
Los pececitos se regalaron de sol
Los benteveos de azul
Bajo el sol de la tarde las cercas se encrinaban de yeguas
Y los alambres se resignaron a las aristas, como rosas
Los canarios ignoraban los espinos
Para dulcemente tomar cabellos bayos y nidificar el mundo
Los canarios hartaban el mundo de amarillo
Del otro lado, el río plañía.
Sé de canarios, tangaras y coleiros
Torturados en jaulas de bar
También ellos perdieron,
Los pequeños borrachos.
¿De qué sienten falta,
Del vuelo, del fondeadero, del amar?
Yo también soy uno de ellos,
Colgando en mesa de bar
¿De qué siento falta,
Del vuelo, del fondeadero, del amar?


Traducción: Alberto Acosta

25 abr. 2011

Año 3 - Hoja N°4 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Egle Luján

Edson Cruz (Brasil)

CIDADE IMAGINÁRIA


a busca principia e se finda no coração
na longa jornada, dia a dia, se oficia
e ao final nos brinda com a claridão

no meio do caminho de minha vida
viajante que sou por sendas selváticas
ouço falar de cidade tão querida

com dadivosos tesouros e benefícios enfáticos
sua existência - nutriente da procura
leva-me adiante em ofício tão errático

encontrá-la, amacia o ferro-vida que perdura
habitá-la, ultrapassa o mundo-lida já tão lábil
desposá-la, é a felizcidade em tessitura

se até aqui nada me havia sido fácil
agora verei do que realmente o laço é feito
em nada me adiantou ter sido hábil

tal estrada abriga horrores em seu leito
terríveis desertos, terra inóspita e dardejante
falta-me ar, me dá sede, a derrota arde-me no peito

corpo em espírito antes tão flamejante
arrefece exausto e amedrontado foge
– chega de tempestades e sol escaldante!

queria eu estar nesta hora que consome
a reviver instantes da memória
lugares que vivi e o deleite que me some

porém, o sábio mestre da vitória
com hábeis meios de uma melodia
soa o canto que nos leva à glória

aquele que conhece o caminho - o guia
presença que em si é a ênfase do tesouro
disciplina o ser e as almas fugidias

em meio ao sofrimento vislumbro o ouro
a imensidão do desejo em seu oásis
a alegria reluzente, as dores em sumidouro

o cansaço esvanece - um desenho a lápis
os contornos da dor desaparecem na fumaça
tudo esqueço, retornar ou desistir – jamais!

sob meus pés a exuberância se enlaça
revela-se íntegra uma cidade tão fantástica
o paraíso em delícias nos perpassa

o guia, com sua voz sonora e dramática
diz que não, estávamos no meio da jornada
a cidade é imaginária, pura névoa carmática



CIUDAD IMAGINARIA



la búsqueda comienza y termina en el corazón
en la larga jornada, día a día, se oficia
y al final nos brinda como una claridad

en el medio del camino de mi vida
viajero que soy por sendas selváticas
oigo hablar de una ciudad tan querida

con dadivosos tesoros y beneficios enfáticos
su existencia –nutriente de la búsqueda
me impulsa adelante en oficio tan errante

encontrarla, suaviza la vida de hierro que perdura
habitarla, excede el mundo de lucha ya tan lábil
desposarla, es la felicidad en tesitura

si hasta aquí nada me había resultado fácil
ahora veré que realmente el nexo está hecho
en nada me favoreció haber sido hábil

tal calle abriga horrores en su lecho
terribles desiertos, tierra inhóspita y asaeteante
me falta el aire, me da sed, la derrota arde en mi pecho

cuerpo en espíritu antes tan flamígero
se enfría exhausto y amedrentado huye
-¡llegada de tempestades y sol escaldante!

quería yo estar en esta hora que consume
reviviendo instantes de la memoria
lugares donde viví el deleite que me sume

pero, el sabio maestro de la victoria
con los hábiles medios de una melodía
tañe el canto que nos lleva a la gloria

aquél que conoce el camino –el guía
presencia que en sí es un énfasis de tesoro
disciplina el ser y las almas huidizas

en medio del sufrimiento vislumbro el oro
la intensidad del deseo en su oasis
la alegría reluciente, los dolores en el sumidero

el cansancio desvanece –un diseño a lápiz
los contornos del dolor desaparecen en la humareda
todo olvido, retornar o desistir- ¡jamás!

debajo de mis pies una exuberancia se enlaza
se revela íntegra una ciudad tan fantástica
el paraíso en delicias nos sobrepasa

el guía, con su voz sonora y dramática
dice que no, estábamos en el medio de la jornada,
la ciudad es imaginaria, pura niebla kármica


[do livro Sortilégio, edições Demônio Negro, São Paulo, Brasil, 2007, edição bilíngue]
Traduções de Adriana de Almeida (tradutora brasileira) e Luis Benitez (poeta argentino)

Edson Cruz (Brasil)

A VASTA NUVEM


há muitas espécies de flores
árvores, ervas em série e tamanhos
no planeta inundam todas as cores

por mais que haja perdas e ganhos
o abraço do céu se ergue no mundo
e a chuva deságua por sobre os rebanhos

por mais que te chames Raimundo
comungas da mesma aflição
enquanto alguns param, outros estão no gerúndio

às vezes tu dizes o sim, outras preferes o não
mas como tudo é tão vário
e bebemos da mesma água e clarão

talvez seja mesmo tão raro
encontrar rimas em tamanha profusão
ou quem sabe seja mesmo a única solução.



LA VASTA NUBE


existen muchas especies de flores
árboles, hierbas, en series y tamaños
inundan el planeta todos sus colores

por más que haya pérdidas y ganancias
el abrazo del cielo se yergue en el mundo
y la lluvia cae sobre los rebaños

por más que te llames Raimundo
comulgas de la misma aflicción
en cuanto algunos se detienen, otros están en el gerundio

a veces tú dices sí, otras prefieres un no
más como todo es tan variado
y beberemos de la misma agua y claridad

tal vez sea asimismo tan raro
encontrar rimas en tanta profusión
o quién sabe sea ésa la única solución.


[do livro Sortilégio, edições Demônio Negro, São Paulo, Brasil, 2007, edição bilíngue]
Traduções de Adriana de Almeida (tradutora brasileira) e Luis Benitez (poeta argentino)

Edson Cruz (Brasil)

SINAL VERDE


tantos anos se arrastaram
já não me lembro de minha infância
será que a tive, ou foi um sonho?

tudo se resume a uma noite
noite de escolha e enfrentamento
ali, me fiz na solidão azul
do nascimento

“se não quer ir ao culto
que fique aí, sozinho!”

fiquei ali, e ainda estou...
em casa escura e sobressaltada
por sombras e faróis relampejando
abandonado de deuses e de afetos

não dormi, como não durmo agora
não fugi, como nem posso embora
ali, a vontade de meu eu se impôs
minha porção de dor se amarelou

permaneci na infinitude do possível
e assim abraço o totem
de vida que sutil me resta

na contingente luz verde que se revela
aceito humilde e resignado
o gentil açoite da morte que me espera.



SEÑAL VERDE


tantos años se arrastran
ya no me acuerdo de mi infancia
¿la tuve o fue un sueño?

todo se resume en una noche
noche de elección y enfrentamiento
allí, me hice en la soledad azul
del nacimiento

“¡si no quiere ir al culto
que siga allí, solo!”

seguí allí, y todavía estoy…
en casa oscura y sobresaltada
por sombras y faroles relampagueando
abandonado por dioses y afectos

no dormí, como no duermo ahora
no escapé, como no puedo aunque
allí, la voluntad de mi yo se impuso
mi porción de dolor amarilleó

permanecí en la infinitud de lo posible
y así abrazo el tótem
de vida que sutil me resta

en la contingente luz que se revela
acepto humilde y resignado
el gentil azote de la muerte que me espera.


[do livro Sortilégio, edições Demônio Negro, São Paulo, Brasil, 2007, edição bilíngue]
Traduções de Adriana de Almeida (tradutora brasileira) e Luis Benitez (poeta argentino)