25 abr. 2011

Año 3 - Hoja N°4 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Egle Luján

Edson Cruz (Brasil)

CIDADE IMAGINÁRIA


a busca principia e se finda no coração
na longa jornada, dia a dia, se oficia
e ao final nos brinda com a claridão

no meio do caminho de minha vida
viajante que sou por sendas selváticas
ouço falar de cidade tão querida

com dadivosos tesouros e benefícios enfáticos
sua existência - nutriente da procura
leva-me adiante em ofício tão errático

encontrá-la, amacia o ferro-vida que perdura
habitá-la, ultrapassa o mundo-lida já tão lábil
desposá-la, é a felizcidade em tessitura

se até aqui nada me havia sido fácil
agora verei do que realmente o laço é feito
em nada me adiantou ter sido hábil

tal estrada abriga horrores em seu leito
terríveis desertos, terra inóspita e dardejante
falta-me ar, me dá sede, a derrota arde-me no peito

corpo em espírito antes tão flamejante
arrefece exausto e amedrontado foge
– chega de tempestades e sol escaldante!

queria eu estar nesta hora que consome
a reviver instantes da memória
lugares que vivi e o deleite que me some

porém, o sábio mestre da vitória
com hábeis meios de uma melodia
soa o canto que nos leva à glória

aquele que conhece o caminho - o guia
presença que em si é a ênfase do tesouro
disciplina o ser e as almas fugidias

em meio ao sofrimento vislumbro o ouro
a imensidão do desejo em seu oásis
a alegria reluzente, as dores em sumidouro

o cansaço esvanece - um desenho a lápis
os contornos da dor desaparecem na fumaça
tudo esqueço, retornar ou desistir – jamais!

sob meus pés a exuberância se enlaça
revela-se íntegra uma cidade tão fantástica
o paraíso em delícias nos perpassa

o guia, com sua voz sonora e dramática
diz que não, estávamos no meio da jornada
a cidade é imaginária, pura névoa carmática



CIUDAD IMAGINARIA



la búsqueda comienza y termina en el corazón
en la larga jornada, día a día, se oficia
y al final nos brinda como una claridad

en el medio del camino de mi vida
viajero que soy por sendas selváticas
oigo hablar de una ciudad tan querida

con dadivosos tesoros y beneficios enfáticos
su existencia –nutriente de la búsqueda
me impulsa adelante en oficio tan errante

encontrarla, suaviza la vida de hierro que perdura
habitarla, excede el mundo de lucha ya tan lábil
desposarla, es la felicidad en tesitura

si hasta aquí nada me había resultado fácil
ahora veré que realmente el nexo está hecho
en nada me favoreció haber sido hábil

tal calle abriga horrores en su lecho
terribles desiertos, tierra inhóspita y asaeteante
me falta el aire, me da sed, la derrota arde en mi pecho

cuerpo en espíritu antes tan flamígero
se enfría exhausto y amedrentado huye
-¡llegada de tempestades y sol escaldante!

quería yo estar en esta hora que consume
reviviendo instantes de la memoria
lugares donde viví el deleite que me sume

pero, el sabio maestro de la victoria
con los hábiles medios de una melodía
tañe el canto que nos lleva a la gloria

aquél que conoce el camino –el guía
presencia que en sí es un énfasis de tesoro
disciplina el ser y las almas huidizas

en medio del sufrimiento vislumbro el oro
la intensidad del deseo en su oasis
la alegría reluciente, los dolores en el sumidero

el cansancio desvanece –un diseño a lápiz
los contornos del dolor desaparecen en la humareda
todo olvido, retornar o desistir- ¡jamás!

debajo de mis pies una exuberancia se enlaza
se revela íntegra una ciudad tan fantástica
el paraíso en delicias nos sobrepasa

el guía, con su voz sonora y dramática
dice que no, estábamos en el medio de la jornada,
la ciudad es imaginaria, pura niebla kármica


[do livro Sortilégio, edições Demônio Negro, São Paulo, Brasil, 2007, edição bilíngue]
Traduções de Adriana de Almeida (tradutora brasileira) e Luis Benitez (poeta argentino)

Edson Cruz (Brasil)

A VASTA NUVEM


há muitas espécies de flores
árvores, ervas em série e tamanhos
no planeta inundam todas as cores

por mais que haja perdas e ganhos
o abraço do céu se ergue no mundo
e a chuva deságua por sobre os rebanhos

por mais que te chames Raimundo
comungas da mesma aflição
enquanto alguns param, outros estão no gerúndio

às vezes tu dizes o sim, outras preferes o não
mas como tudo é tão vário
e bebemos da mesma água e clarão

talvez seja mesmo tão raro
encontrar rimas em tamanha profusão
ou quem sabe seja mesmo a única solução.



LA VASTA NUBE


existen muchas especies de flores
árboles, hierbas, en series y tamaños
inundan el planeta todos sus colores

por más que haya pérdidas y ganancias
el abrazo del cielo se yergue en el mundo
y la lluvia cae sobre los rebaños

por más que te llames Raimundo
comulgas de la misma aflicción
en cuanto algunos se detienen, otros están en el gerundio

a veces tú dices sí, otras prefieres un no
más como todo es tan variado
y beberemos de la misma agua y claridad

tal vez sea asimismo tan raro
encontrar rimas en tanta profusión
o quién sabe sea ésa la única solución.


[do livro Sortilégio, edições Demônio Negro, São Paulo, Brasil, 2007, edição bilíngue]
Traduções de Adriana de Almeida (tradutora brasileira) e Luis Benitez (poeta argentino)

Edson Cruz (Brasil)

SINAL VERDE


tantos anos se arrastaram
já não me lembro de minha infância
será que a tive, ou foi um sonho?

tudo se resume a uma noite
noite de escolha e enfrentamento
ali, me fiz na solidão azul
do nascimento

“se não quer ir ao culto
que fique aí, sozinho!”

fiquei ali, e ainda estou...
em casa escura e sobressaltada
por sombras e faróis relampejando
abandonado de deuses e de afetos

não dormi, como não durmo agora
não fugi, como nem posso embora
ali, a vontade de meu eu se impôs
minha porção de dor se amarelou

permaneci na infinitude do possível
e assim abraço o totem
de vida que sutil me resta

na contingente luz verde que se revela
aceito humilde e resignado
o gentil açoite da morte que me espera.



SEÑAL VERDE


tantos años se arrastran
ya no me acuerdo de mi infancia
¿la tuve o fue un sueño?

todo se resume en una noche
noche de elección y enfrentamiento
allí, me hice en la soledad azul
del nacimiento

“¡si no quiere ir al culto
que siga allí, solo!”

seguí allí, y todavía estoy…
en casa oscura y sobresaltada
por sombras y faroles relampagueando
abandonado por dioses y afectos

no dormí, como no duermo ahora
no escapé, como no puedo aunque
allí, la voluntad de mi yo se impuso
mi porción de dolor amarilleó

permanecí en la infinitud de lo posible
y así abrazo el tótem
de vida que sutil me resta

en la contingente luz que se revela
acepto humilde y resignado
el gentil azote de la muerte que me espera.


[do livro Sortilégio, edições Demônio Negro, São Paulo, Brasil, 2007, edição bilíngue]
Traduções de Adriana de Almeida (tradutora brasileira) e Luis Benitez (poeta argentino)

Kato Molinari (Argentina)

LOS TRABAJOS MÁS NOBLES DE LA TIERRA


Para explicarse el universo entero y sus engranajes,
Descartes se crispaba frente a un luminoso
discurso por escribir.

Con Cándido nacido o por nacer,
Y transido de amor por Madame du Châtelet,
Voltaire sonreía y crecía hasta
sus rasgos parecían hermosos.

En el País de Prospère había regocijo
Y escándalo en el País oficial,
Con la Bella Otero.

Coquetas salas de Europa
se poblaron de infinitos y falsos Corot.
(Corot vivía y también él sonreía.)

Curie y señora lejos de toda envidia,
huéspedes mesurados del esplendor,
investigaban.

Los que restañan y curan,
los que esparcen belleza,
cumplen con los trabajos más nobles de la tierra.





OS TRABALHOS MAIS NOBRES DA TERRA



Para explicar o universo inteiro e suas engernagens,
Descartes se contraía diante de um luminoso
discurso por escrever.

Com Cândido nascido ou por nascer,
e transido de amor por Madame du Chàtelet,
Voltaire sorria e crescia até
suas feições parecerem lindas.

No País de Prospere havia regozijo
e escândalo no País oficial,
com a Bella Ottero.

Glamourosas salas da Europa
se encheram de infinitos e falsos Corot.
(Corot vivia e também ele sorria.)

Curie e senhora loge de toda inveja,
hóspedes comedidos do esplendor,
investigavam.

Os que estancam e curam,
os que propagam beleza,
cumprem com os trabalhos mais nobres da terra.



Traducción: Ronaldo Cagiano

Kato Molinari (Argentina)

LOS ANIMALES OBSERVADORES HABRAN DE SACAR PROVECHO


Los animales observadores habrán de sacar provecho
de esta experiencia.
Tomarán lección sus plumas, sus garras,
sus sonidos. .
Comprehenderán que el desmoronamiento ha comenzado
en las vertientes y en las nubes.
Ya no lloverá para borrar y barrer.
No habrá lengüetazos sobre las heridas
ni arrullos complicados al anochecer.

Aquellos que saben ver y deducir
procurarán poner al resguardo
sus tumultuosos corazones.
No hablarán de más, ni picotearán,
aprenderán de golpe la prudencia.

Quitarle al cuervo los ojos
no es lo más bello ni lo más fácil.
Los parientes ciegos irán muriendo de a poco.




OS ANIMAIS OBSERVADORES FALAM DE TIRAR PROVEITO


Os animais observadores falam de tirar proveito
desta experiência.
Terão aula suas plumas, suas garras,
seus sons.
Compreenderão que o desmoronamento começou
nas vertentes e nas nuvens.
E não choverá para apagar e varrer.
Não haverá lambida sobre as feridas
nem arrulhos complicados ao anoitecer.

Aqueles que sabem ver e deduzir
procurarão resguardar
seus tumultuados corações.
Não falarão demais, nem bicarão,
aprenderão de repente a prudência.

Remover o corvo dos olhos
não é o mais belo nem o mais fácil.
Os parentes cegos vão morrendo pouco a pouco.



Traducción: Ronaldo Cagiano

Kato Molinari (Argentina)

LA ENEMIGA DE LA FAMILIA



Yo era propensa, dictaminó mi parentela no

deseada, a: la gula, la vagancia, la lascivia,

el sueño, el dibujo, la música, las palabras

escritas.

era, por lo tanto, la enemiga de la

familia.




A INIMIGA DA FAMÍLIA



Eu estava propensa, determinou minha parentela não

desejada, a: à gula, à vadiagem, à lascívia,

ao sonho, ao desenho, à música, às palavras

escritas.

foi, portanto, a inimiga da

família.



Traducción: Ronaldo Cagiano

Hildeberto Barbosa Filho (Brasil)

VERBETE


Nasceu
em tempo morto,
sem origem.

Sem raízes
sem frutos,
habita o caos.


Anônimo,
escreve poemas
com as sílabas
do silêncio.

Nunca leu Rimbaud
nem Rilke nem Ramon.

Consta, porém, em nota
de rodapé, numa enciclopédia
de espantos.



ENTRADA

Nacido
en tiempo muerto,
sin origen.

Sin raíces
sin frutos,
habita el caos.

Anónimo,
escribe poemas
con las sílabas
del silencio.

Nunca leyó Rimbaud
ni Rilke ni Ramon.

Consta, todavía, en nota
de pie de página, en una enciclopedia
de asombros.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Hildeberto Barbosa Filho (Brasil)

ANIVERSÁRIO


Para Ascendino Leite


Por onde andei,
levei comigo o meu Vale.

Nem a solidão nem o silêncio
nem o deserto conseguiram
evitar que eu tocasse o topo
da montanha.

Noventa anos não é apenas um tempo.
È uma insólita geografia.
Há uma única viagem: a da origem,
e meu Vale é a minha pele,
e meu Vale é a minha vida.



CUMPLEAÑOS


Para Ascendino Leite


Donde caminé,
llevé conmigo mi Vale.

Ni la soledad ni el silencio
ni el desierto podrían
evitar que yo tocase la cumbre
de la montaña.

Noventa años no es sólo un tiempo.
Es una inusual geografía.

Hay un solo viaje: el del origen,
y mi Vale es mi piel,
y mi Vale es mi vida.


Traducción: Ronaldo Cagiano

Hildeberto Barbosa Filho (Brasil)

LEMBRANÇA


Conservo-te
como perplexo diamante
que agoniza,
adubando, em júbilo,
o esmeril da memória.



RECUERDO


Te mantengo
como perplejo diamante
que agoniza,
fertilizando, jubiloso,
lo esmeril de la memoria.


Traducción: Ronaldo Cagiano

6 abr. 2011

Año 3 - Hoja N°3 - Bienvenidos - Navegantes 2011


Fotografía: Aída Ovando

Iacyr Anderson Freitas - Brasil

ELEGIA



o inverno quer ficar contigo
nesse jardim
onde um velho dorme.
ainda não são seis horas
e a nuvem
que agora te acusava
some no azul, desfeita
por teu brilho
que envelhece,
é certo,
sem o alarde
dos ventos mesmos
de outrora.

o que procura estar contigo
não te envolve:
espera, agudo, nesse jardim
inaugural
entre formigas,
jornais
e o que resta de setembro.

vives uma infância transitória
e teus cabelos cingem,
na cintura, o esboço
de um adeus
que a tua própria ausência configura.


(De: Messe - 1995)




ELEGÍA



el invierno quiere quedarse contigo
en este jardín
donde un viejo duerme.
todavía no son las seis
y la nube
que ahora te acusaba
sume en el azul, deshecha
por tu brillo
que envejece,
es cierto,
sin el alarde
de los mismos vientos
de otrora.

lo que busca estar contigo
no te envuelve:
espera, agudo, en este jardín
inaugural
entre hormigas,
diarios,
y lo que queda de setiembre.

vives una infancia transitoria
y tus cabellos ciñen,
en la cintura, el esbozo
de un adiós
que tu propia ausencia configura.


Traducción: Míriam Volpe

Iacyr Anderson Freitas - Brasil

POEMA 62



considera o tempo entre coisas.
a distância movendo-se contra os dias,
avançando sobre os dias,
escavando-os.

considera a morte, a palavra
morte nesses páramos
: dura imagem de extinguir-se
enquanto sóis trabalham.

corre o tempo por teu rosto agora
sem qualquer barulho.
há multidões, muros, mundos
por teu rosto.
“outrora foram cavalos nesse duro solo
e estações precipitando-se
e febres”

mas nada percute entre fogos.
as coisas cansaram-se de existir
: engrenagens, polias,
motores tombam.
seus corpos abrem flores na ferrugem.

o chão é o mesmo há séculos
: aqui, outrora,
tombaram-se os dias.
mas onde dos corpos o visgo?
: o silêncio
o silêncio sepulta a paisagem
e o deus se move, iniludível.

o tempo é o esquecimento maior
um quadro em que estás grácil e grave
uma paisagem, um vento roendo as ilhas.
entre fomes, entre fogos o chão caminha.
vergando-se aos arreios da tarde, aos rios,
sob teus pés, apodrecendo
com teus pés o chão caminha.
carrega nele teus mortos. vacila.
sim: este é o chão da demência, o sítio
aberto em ti e em tua memória
agora


(De: Sísifo no Espelho - 1990)



POEMA 62



considera el tiempo entre cosas.
la distancia moviéndose contra los días,
avanzando sobre los días,
excavándolos.

considera la muerte, la palabra
muerte en estos páramos
: dura imagen de extinguirse
mientras soles trabajan.

corre el tiempo por tu rostro ahora
sin cualquier barullo.
hay multitudes, muros, mundos
por tu rostro.
“otrora fueron caballos en ese duro suelo
y estaciones precipitándose
y fiebres”.

pero nada percute entre fuegos.
las cosas se cansaron de existir
: engranajes, poleas,
motores tumban,
sus cuerpos abren flores en el herrumbre.

el suelo es el mismo hace siglos
: aquí, otrora,
se cayeron los días.
pero ¿dónde de los cuerpos el zumo?
: el silencio
el silencio sepulta el paisaje
y el dios se mueve, indubitable.

el tiempo es el olvido mayor
un cuadro en que estás grácil y grave
un paisaje, un viento royendo las islas.
entre hambres, entre fuegos la tierra camina.
doblegándose a los arreos de la tarde, a los ríos,
bajo tus pies, pudriéndose
con tus pies la tierra camina.
carga en ella tus muertos. vacila.
sí: esta es la tierra de la demencia, el sitio
abierto en ti y en tu memoria
ahora.


Traducción: Míriam Volpe

Iacyr Anderson Freitas - Brasil

BANDEIRA



pode a noite descer
pode a indesejada das gentes chegar
eu já tive
todas as lições de partir
: volto enfim a tomar conhecimento da aurora

tive a estrela da manhã
tive as três mulheres do sabonete araxá
como quisera eu o meu último poema?
meus amigos meus inimigos
procurem o meu último poema
hei de aprender com ele
a partir de uma vez
sem medo
sem remorso
sem saudade


(De: O aprendizado da figura - 1989)


BANDEIRA



puede la noche bajar
puede la indeseada por la gente llegar
yo ya tuve
todas las lecciones de partir
: vuelvo en fin a tomar conocimiento de la aurora

tuve la estrella de la mañana
tuve las tres mujeres del jabón araxá
¿cómo quisiera yo mi último poema?
mis amigos mis enemigos
busquen mi último poema
he de aprender con él
a partir de una vez
sin miedo
sin remordimientos
sin saudade


Traducción: Míriam Volpe

Fernando Marques Freitas - Brasil

Textos do projeto de livro
A dor que a gente adora e outros poemas
Em quatro breves movimentos
Por Fernando Marques
BSB, 2009


PRIMEIRO MOVIMENTO
 
 
Como o violinista passa,
lânguido,
o arco sobre a corda,
longas notas,
roçar a lâmina no pulso
sem escândalo:
olhos alheios ausentes,
morrer suavemente
 
 
[Publicado na revista Gárgula, 1997]



PRIMER MOVIMiENTO

Como el violinista pasa,
lánguido,
el arco sobre la cuerda,
largas notas,
rozan la lámina en el pulso
sin escándalo:
ojos ajenos ausentes,
mueren suavemente



Traducción: Alberto Acosta 

Fernando Marques Freitas - Brasil

DUO

 
O poema – por que não? – cabe numa folha de papel
Surge numa folha do jornal
de ontem
Numa nuvem alta
  paira
Onde quer que o crave, branca
arma
a onipresença
suave
 
Gera o torvelinho de palavras
  ideias, que se anelam
como dedos, rolam
como dados
 
Delas emerge, plena luz
  metáfora
 
O tema o poema
pois me flagro
falando ao mesmo tempo do poeta
  onde o poema realiza seu trabalho
 
O da gripe
lírica
que gesta
o ato
 
É simplesmente grafá-lo
 
[Gárgula, 1997]



DÚO

 
El poema – ¿por qué no? – cabe en una hoja de papel
Surge en una hoja del diario
de ayer
En una nube alta
  acecha
Donde quiera que lo clave, blanca
arma
la omnipresencia
suave
 
Genera el torbellino de palabras
  ideas, que se anillan
como dedos, ruedan
como dados
 
De ellas emerge, plena luz
  metáfora
 
El tema el poema
pues me flagro
hablando al mismo tiempo del poeta
 donde el poema realiza su trabajo
 
O de la gripe
lírica
que gesta
el acto
 
Y simplemente lo grafica

 

Traducción: Alberto Acosta

Fernando Marques Freitas - Brasil

SEGUNDO MOVIMENTO
 
 
A DOR QUE A GENTE ADORA

 
É sempre lisonjeiro imaginar
a própria dor maior que a dor alheia:
enxerga-se no espelho o rosto mártir
e faz-se de si mesmo grande ideia.
 
A dor será menor se nós pensarmos
que somos os artistas e a plateia
de nossa força imensa a tolerar
a crueldade do que nos rodeia.
 
Então é muito fácil permitir
que a dor, que detestávamos, prossiga
ferindo nossa carne e nossa alma:
 
um vício de que não se quer fugir
nos faz, de nossa dor, a nossa amiga
e faz, do sofrimento, a própria calma. 
 
[Gravado em Raízes da voz, disco do ator Adeilton Lima, 2002]



EL DOLOR QUE ADORAMOS

 
Es siempre lisonjero imaginar
el propio dolor mayor que el dolor ajeno:
entreverse en el espejo el rostro mártir
y hacerse de sí mismo gran idea.
 
El dolor será menor si pensamos
que somos los artistas y la platea
de nuestra fuerza inmensa para tolerar
la crueldad de lo que nos rodea.
 
Entonces es muy fácil permitir
que el dolor, que detestábamos, prosiga
hiriendo nuestra carne y nuestra alma:
 
un vício del que no se quiere huir
hace, de nuestro dolor, nuestro amigo
y hace, del sufrimiento, propia calma. 


Traducción: Alberto Acosta 

César Cantoni - Argentina

¿ DÓNDE ESTABA DIOS?


¿Dónde estaba Dios cuando se desató el incendio
Y la humilde vivienda fue devorada por las llamas?
¿Cómo pudo estar distraído, a una hora nocturna, en
pleno invierno,
mientras los niños dormían en su cuarto,
confiados al abrigo de una estufa encendida?
¿Qué hacía que no oyó la sirena de la autobomba,
los gritos ahogados de la madre volviendo del
trabajo,
el desconcierto de vecinos en demanda de auxilio?
Ahora alguien buscará entre los restos humeantes la
causa del siniestro;
alguien se encargará de formular condenas.
¿Pero qué puede importar esto a los pequeños
mártires?
Ellos quieren saber por qué se quedaron sin
opciones,
por qué los recaudos del cielo nunca alcanzan.



ONDE ESTAVA DEUS?


Onde estava Deus quando se alastrou o incêndio
e a humilde casa foi devorada pelas chamas?
Como pôde estar distraído, a uma hora da madruada, em
pleno inverno,
enquanto as crianças dormiam em seu quarto,
abrigados numa estufa inflamada?
Que fazia que não olhou a sirene do caminhão do corpo de bombeiros,
os gritos sufocados da mãe voltando
do trabalho,
a deconcerto dos vizinhos em busca de ajuda?
Agora alguém buscará entre os restos fumegantes a
causa do sinistro;
alguém se encarregará de formular condenações.
Mas que pode importar isso aos pequenos mártires?
Eles querem saber porque se ficaram sem
opções,
porque os cuidados do céu nunca chegam.


Traducción: Ronaldo Cagiano

César Cantoni - Argentina

A LA MANERA DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS


Sólo quiero que sepas
que si detuve mi marcha
ante tu puerta,

y no seguí de largo,
y no crucé la calle,
y no doblé en la esquina,
no fue porque olvidé
donde vive
el jardinero

(al que buscaba
para podar
la ligustrina),

sino porque tus ojos
me distrajeron
del camino.



À MANEIRA DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS


Só quero que saibas
que se detive minha marcha
diante da sua porta,

e não segui adiante,
e não cruaei a rua,
e não dobrei na esquina,

não foi porque esqueci
onde vive
o jardineiro

(a quem buscava
para podar
o alfeneiro),

mas porque tesus olhos
me distraíram
do caminho.



Traducción: Ronaldo Cagiano

César Cantoni - Argentina

AQUÍ NO HAY DIOS


Aquí no hay dios, ni griego ni romano,
que presida ninguna ceremonia.
No hay oro ni laurel para los vencedores.

Aquí no hay más que un piquete de obreros,
con martillos neumáticos, rompiendo la calzada,
haciendo un pozo que no será nunca

el ombligo del mundo, la fuente de las revelaciones.
Un pozo más hondo que el sentimiento de los dioses,
más negro que el propio corazón humano.



AQUI NÃO HÁ DEUS


Aqui não há deus, nem grego nem romano,
Que presida nenhuma cerimônia.
Não há ouro nem prêmio para os vencedores.

Aqui não há mais que um piquete de trabalhadores,
com martelos pneumáticos, quebrando a estrada,
fazendo um poço que não será nunca

o umbigo do mundo, a fonte das revelações.
Um poço mais fundo que o sentimento dos deuses,
Mais negro que o próprio coração humano.


Traducción: Ronaldo Cagiano