3 dic. 2011

RONALDO CAGIANO de "O SOL NAS FERIDAS"

O RITMO DAS COISAS


A poesia traz as coisas para si
e de si as reinventa para a vida.
Joaquim Branco


O tempo
com sua máquina de esquadrinhar
esfarela o museu de ossos
escondido sob a pele fatigada.

O tempo
e seu evangelho de dissoluções
escultor insone
burilando o caminho rumo às Parcas.

O tempo
com sua vigília
sobre os escombros
em que nos transformamos a cada dia.

O tempo
arsenal de punhais
com a lógica taliônica
de uma rude cronologia.

O tempo
(belvedere ou abismo?)
no qual me lanço
para ser absorvido pelo insondável
na peregrinação movediça no vazio.

O tempo
animal invisível
que nos rouba todas as idades
e nos devora
com seu ritual insensato
dentes afiados
como uma nuvem de gafanhotos
devorando nossas córneas.

O tempo
relógio insaciável
anoitecendo os meus olhos.

O tempo
a moenda das horas
impondo o ritmo das coisas.

De: “O SOL NAS FERIDAS”, Dobra Literatura, São Paulo, 2011.

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