20 ago 2010

Anderson Braga Horta (Brasil)

INSTANTES


Certa manhã,
como as nuvens que ela trazia em torno à cabeça
um momento se abrissem,
eu vi os seus olhos.
Eram ovais,
ogivas de um templo de brumas.
Durou instante a visão,
dois séculos apenas
de êxtase —oh sol nevoento—
e medo —ai, lúcidos
olhos—
de romper-lhe o segredo.
Dois séculos? não sei,
dois milênios passaram-se.
E uma tarde, quando
as nuvens
cristalizaram prismas, o fulgor
de sua íris em arco
flechou-me — e eu vi,
eu vi a cor dos seus olhos!
Eram cinza,
germinavam neblinas debruçadas sobre rios
e caíam póstumos dilúvios. (Havia
trezentas angústias que eu
os esperava!) Depois, bivalve,
de novo fechou-se a nebulosa.
Não faz mal. Esperarei outros
dois mil anos-cinza.



(De: Exercícios de Homen)



INSTANTES


Cierta mañana,
como las nubes que ella traía en torno a su cabeza
se abriesen un momento,
yo vi sus ojos.
Eran ovales,
ojivas de un templo de brumas.
Duró un instante la visión,
dos siglos apenas
de éxtasis –Oh sol neblinoso–
y miedo –Ay, lúcidos
ojos–
de romper el secreto.
Dos siglos? No sé,
dos milenios se pasaron.
Y una tarde, cuando
las nubes
cristalizaron prismas, el fulgor
de su iris en arco me flechó –y vi,
yo vi el color de sus ojos!
Eran ceniza,
germinaban neblinas despeinadas sobre ríos
y caían póstumos diluvios. (Hacía
trescientas angustias que yo
los esperaba!). Después, bivalva,
de nuevo se cerró la nebulosa.
No importa. Esperaré otros
dos mil años-ceniza.



Traducción: Francisco R Bello

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