5 may. 2010

Rodrigo Petronio (Brasil)

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OS HOMENS CARREGAM SUAS SOMBRAS


Os homens carregam suas sombras.
Afundam na madrugada com todas as suas estrelas.

Não conheço minha carne.
Não sou dono das sílabas que meus lábios subtraem ao eclipse
e às chamas verdes destas árvores.

Marcho pelo céu e me detenho vazio de corpo e alma
Diante dos deuses que se suicidam no abismo.
Toda eternidade me é contrária e só sou eu mesmo naquilo que
liquido.
A benevolência cresce em mim como uma praga.
E o amor só se realiza como acerto de meus passos mal
desenhados e malditos.

Cavalos me despertam.
Ultrapassam minha sede e minha espécie rumo ao nada.
Não há água que limpe a sujeira de minhas mãos e de
minha raça.
A clareira dos abutres já me espera.


Homenagem lunar tatuada em minhas chagas.
Círculo monótono de pés e de gravetos fremem
em meu coração
Enquanto as paredes podres se destacam de meu sangue
enferrujado.
E eu assisto indiferente
À procissão de vermes que deixam minha existência bem mais
leve
E coroam a minha cabeça abençoada.

Meu rosto é esse espaço.
Inauguro a minha fala entre essas rezes.
Não sou o sopro liberto com as palavras
Nem a glória que se eleva fugaz
Ave solta de meu pulso aberto e minhas palmas.

Eu sou o Homem.
E agora me ajoelho contrito ante o sol negro em minha prece.



(De: Venho de um País Selvagem - 2009)
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LOS HOMBRES CARGAN SUS SOMBRAS


Los hombres cargan sus sombras.
Se hunden en la madrugada con todas sus estrellas.

No conozco mi carne.
No soy dueño de las sílabas que mis labios sustraen al eclipse
y las llamas verdes de estos árboles.

Marcho por el cielo y me detengo vacío de cuerpo y alma
Delante de los dioses que se suicidan en el abismo.
Toda eternidad me es contraria y sólo soy yo mismo en aquello que
liquido.
La benevolencia crece en mi como una plaga.
Y el amor sólo se realiza como acierto de mis pasos mal
diseñados y malditos.

Caballos me despiertan.
Rebasan mi sed y mi especie rumbo a la nada.
No hay agua que limpie la suciedad de mis manos y de
mi raza.
La calva de los buitres ya me espera.

Homenaje lunar tatuado en mis llagas.
Círculo monótono de pies y de dedos tiemblan
en mi corazón
Mientras las paredes podridas se separan de mi sangre
oxidada.
Y asisto indiferente
A la procesión de gusanos que dejan más leve mi existencia
Y coronan mi cabeza bendecida.
Mi rostro es ese espacio.

Inauguro mi conversación entre esos rezos.
No soy el soplo liberto con las palabras
Ni la gloria que se eleva fugaz
Ave suelta de mi pulso abierto y de mis palmas.

Yo soy el Hombre.
Y ahora me arrodillo contrito ante el sol negro en mi plegaria.



Traducción: Alberto J. Acosta

1 comentario:

  1. Caros,
    Este poema lembra um pouco a poesia dos expressionistas. Belo.
    Abraços,
    Fernando Marques (Brasília, BR).

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